{"id":13582,"date":"2011-02-06T00:45:13","date_gmt":"2011-02-06T00:45:13","guid":{"rendered":"http:\/\/opatriota.org\/portal\/?p=13582"},"modified":"2021-04-08T00:58:50","modified_gmt":"2021-04-08T00:58:50","slug":"tempo-de-muda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=13582","title":{"rendered":"Tempo de muda"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Novo ano, nova presidente, novo Congresso  atuando no Brasil de sempre, com seus \u00eaxitos, suas lacunas e suas  aspira\u00e7\u00f5es. Tempo de muda, palavra que no dicion\u00e1rio se refere \u00e0 troca  de animais cansados por outros mais bem dispostos, ou de plantas que dos  vasos em viveiro v\u00e3o florescer em terra firme. A presidente tem um  estilo diferente do antecessor, n\u00e3o necessariamente porque tenha o  prop\u00f3sito de contrastar, mas porque seu jeito \u00e9 outro. Mais discreta,  com menos loquacidade ret\u00f3rica. Mais afeita aos n\u00fameros, parece ter  percebido, mesmo sem proclamar, que recebeu uma heran\u00e7a braba de seu  patrono e de si mesma. Nem bem assume e seus porta-vozes econ\u00f4micos j\u00e1  t\u00eam que apelar \u00e0s m\u00e1gicas antigas (quanto foi mal falado o doutor  Delfim, que nadava de bra\u00e7ada nos arabescos cont\u00e1beis para esconder o  que todos sabiam!) porque a situa\u00e7\u00e3o fiscal se agravou. At\u00e9 os mercados,  que s\u00f3 descobrem estas coisas quando est\u00e1 tudo por um fio, perceberam.  Mesmo os velhos bobos ortodoxos do FMI, no linguajar descontra\u00eddo do  ministro da Fazenda, viram que algo anda mal.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja no reconhecimento maldisfar\u00e7ado da necessidade de um ajuste  fiscal, seja no alerta quanto ao cheiro de fuma\u00e7a na compra a toque de  caixa dos jatos franceses, seja nas tiradas sobre os at\u00e9 pouco tempo  esquecidos \u201cdireitos humanos\u201d, h\u00e1 sinais de mudan\u00e7a. Os pelegos aliados  do governo que enfiem a viola no saco, pois os d\u00e9ficits dever\u00e3o falar  mais alto do que as benesses que solidarizaram as centrais sindicais com  o governo Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos novos sinais, se contrap\u00f5em os amores antigos: Belo Monte h\u00e1 de  vir \u00e0 luz com cesariana, esquecendo as preocupa\u00e7\u00f5es com o meio ambiente e  com o cumprimento dos requisitos legais; as alian\u00e7as com os partidos da  \u201cgovernabilidade\u201d continuar\u00e3o a custar caro no Congresso e nos  minist\u00e9rios, sem falar no \u201csegundo escal\u00e3o\u201d, cujas joias mais vistosas,  como Furnas (est\u00e1 longe de ser a \u00fanica), j\u00e1 s\u00e3o objeto de amea\u00e7as de  rapto e retalia\u00e7\u00e3o. Diante de tudo isso, como fica a oposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digamos que ela quer ser \u201celevada\u201d, sem sujar as m\u00e3os (ou a l\u00edngua)  nas n\u00f3doas do cotidiano nem confundir cr\u00edtica ao que est\u00e1 errado com  oposi\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds (preocupa\u00e7\u00e3o que os petistas nunca tiveram quando na  oposi\u00e7\u00e3o). Ainda assim, h\u00e1 muito a fazer para corresponder \u00e0 fase de  \u201cmuda\u201d. A come\u00e7ar pela cr\u00edtica \u00e0 falta de estrat\u00e9gia para o pa\u00eds: que  faremos para lidar com a China (reconhecendo seu papel e o muito de  valioso que podemos aprender com ela)? N\u00e3o basta jogar a culpa da baixa  competitividade nas altas taxas de juro. Olhando para o futuro, teremos  de escolher em que produtos poderemos competir com China, \u00cdndia,  asi\u00e1ticos em geral, Estados Unidos, etc. Provavelmente ser\u00e3o os de alta  tecnologia, sem esquecer que os agr\u00edcolas e minerais tamb\u00e9m requerem tal  tipo de conhecimento. Preparamo-nos para a era da inova\u00e7\u00e3o?  Reorientamos nosso sistema escolar nesta dire\u00e7\u00e3o? Como investir em novas  e nas antigas \u00e1reas produtivas sem poupan\u00e7a interna? No governo  anterior, os interesses do Brasil pareciam submergir nos limites do  antigo \u201cTerceiro Mundo\u201d,  guiados pela ret\u00f3rica do Sul-Sul, esquecidos de que a China \u00e9 Norte e  n\u00f3s, mais ou menos. Definimos os Estados Unidos como \u201co outro lado\u201d e  percebemos agora que suas diferen\u00e7as com a China s\u00e3o menores do que  imagin\u00e1vamos. Que faremos para evitar o isolamento e assegurar o  interesse nacional sem guiar-nos por ideologias arcaicas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 outros objetivos estrat\u00e9gicos. Por exemplo, no caso da energia:  aproveitaremos de fato as vantagens do etanol, criaremos uma ind\u00fastria  alcoolqu\u00edmica, usaremos a energia e\u00f3lica mais intensamente? Ou, noutro  plano, por que tanta pressa para capitalizar a Petrobras e endividar o  Tesouro com o pr\u00e9-sal em momento de agrura fiscal? As jazidas do pr\u00e9-sal  s\u00e3o importantes, mas dever\u00edamos ter uma estrat\u00e9gia mais clara sobre  como e quando aproveit\u00e1-las. O regime de partilha \u00e9 mesmo mais  vantajoso? Nada disso est\u00e1 definido com clareza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governo anterior sonegava \u00e0 popula\u00e7\u00e3o o debate sobre seu futuro. O  caminho a ser seguido era definido em surdina nos gabinetes  governamentais e nas grandes empresas. Depois se servia ao pa\u00eds o prato  feito na marcha batida dos projetos-impacto tipo trem-bala, PACs  diversos, usinas hidrel\u00e9tricas de custo indefinido e serventia pouco  demonstrada. Como nos governos autorit\u00e1rios do passado. Est\u00e1 na hora de a  oposi\u00e7\u00e3o berrar e pedir a democratiza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es, submetendo-as ao  debate p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o basta isso, entretanto, para a oposi\u00e7\u00e3o atuar de modo efetivo. H\u00e1  que mexer no desagrad\u00e1vel. N\u00e3o d\u00e1 para calar diante da Caixa Econ\u00f4mica  ter se associado a um banco j\u00e1 falido que agora \u00e9 salvo sem  transpar\u00eancia pelos mecanismos do Proer e assemelhados. E n\u00e3o foi s\u00f3 l\u00e1  que o dinheiro do contribuinte escapou pelos ralos para subsidiar  grandes empresas nacionais e estrangeiras, via BNDES. N\u00e3o ser\u00e1 tempo de  esquadrinhar a fundo a compra dos avi\u00f5es? E o montante da d\u00edvida  interna, que ultrapassa um trilh\u00e3o e seiscentos bilh\u00f5es de reais, n\u00e3o  empana o feito da redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa? E d\u00e1 para esquecer dos  cart\u00f5es corporativos usados pelo Alvorada que foram tornados \u201cde  interesse da seguran\u00e7a nacional\u201d at\u00e9 o final do governo Lula para  esconder o montante dos gastos? N\u00e3o cobraremos agora a transpar\u00eancia? E o  ritmo lento das obras de infraestrutura, prejudicadas pelo preconceito  ideol\u00f3gico contra a associa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com o privado, contra a  privatiza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria em casos espec\u00edficos, passar\u00e1 como se fosse  conting\u00eancia natural? Ou as responsabilidades pelos atrasos nas obras  vi\u00e1rias, de aeroportos e de usinas ser\u00e3o cobradas? Por que n\u00e3o come\u00e7ar  com as da Copa, libertas de licita\u00e7\u00e3o e mesmo assim dormindo em ber\u00e7o  espl\u00eandido?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, sim, muita coisa para dizer nesta hora de \u201cmuda\u201d. Ou a oposi\u00e7\u00e3o  fala e fala forte, sem se perder em questi\u00fanculas internas, ou tudo  continuar\u00e1 na toada de tomar a propaganda por realiza\u00e7\u00e3o. Mesmo porque,  por mais que haja nuances, o governo \u00e9 um s\u00f3 Lula-Dilma, governo do PT  ao qual se subordinam \u00e1vidos aliados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">por <strong>Fernando Henrique Cardoso<\/strong>, Ex-presidente da Rep\u00fablica<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Novo ano, nova presidente, novo Congresso atuando no Brasil de sempre, com seus \u00eaxitos, suas lacunas e suas aspira\u00e7\u00f5es. 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