{"id":18970,"date":"2013-09-22T08:36:49","date_gmt":"2013-09-22T08:36:49","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=18970"},"modified":"2021-04-08T01:30:22","modified_gmt":"2021-04-08T01:30:22","slug":"corpo-e-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=18970","title":{"rendered":"Corpo e alma"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Nosso corpo \u00e9 o mesmo velho corpo do homem primitivo. \u00c9 sujeito \u00e0s mesmas velhas doen\u00e7as. Nossos cr\u00e2nios s\u00e3o ainda os mesmos nos quais os artigos bem &#8211; intencionados, com uma l\u00f3gica dolorosa, faziam buracos para aliviar dores de cabe\u00e7a ou libertar os dem\u00f4nios da loucura. As m\u00famias sofreram de apendicite, artrite e dentes estragados. Para mumificar, insere-se um gancho no nariz para retirar o c\u00e9rebro, abrem-se os flancos e rega-se com especiarias e sal durante 70 dias. At\u00e9 os dinossauros tinham problemas de coluna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cad\u00e1veres eram a terra comum na qual a medicina pastava e engordava. O material era filantropicamente fornecido por criminosos, para os quais a disseca\u00e7\u00e3o sangrenta assustava mais do que a amea\u00e7a da forca. Quando o estoque ficava baixo, em Edimburgo, para o cintilante professor Robert Knox (1791-1862), Burke e Hare sempre podia me desenterrar algu\u00e9m para ajudar. O problema desses dois homens era a pregui\u00e7a. Para n\u00e3o ter de acompanhar enterros, evitar cautelosamente os parentes do morto e cavar no escuro, com p\u00e1s de madeira para n\u00e3o fazer ru\u00eddo, eles embriagavam corpos vivos com whisky, estrangulavam e os vendiam por 7,10 libras cada um. Era enorme o n\u00famero de &#8220;ressurrescionistas&#8221;, at\u00e9 que a Lei Brit\u00e2nica da Anatomia, em 1832, substituiu o preenchimento de um formul\u00e1rio por volunt\u00e1rios vision\u00e1rios. Houve um grande debate em Montreal, em 1875, quando o tifo dizimou os ocupantes de uma escola\/convento, e as freiras e crian\u00e7as foram roubadas antes que os pais americanos chegassem para levar os coros para casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anatomistas gravaram seus nomes em n\u00f3s, com o mesmo amor que os namorados gravam seus nomes nas \u00e1rvores. N\u00f3s abrigamos as criptas de Lieberk\u00fchn no envolt\u00f3rio dos intestinos. O c\u00edrculo de Willis, que \u00e9 a jun\u00e7\u00e3o das art\u00e9rias na base do cr\u00e2nio. A ampola de Vater, que guarda a extremidade do duto biliar. O forame de Wilson, uma abertura no perit\u00f4nio, abaixo do f\u00edgado. A fossa de Rolando, no c\u00e9rebro, a bainha de Schwann, nos nervos. O saco de Douglas, atr\u00e1s do \u00fatero, o canal de Alcock, na p\u00e9lvis (&#8220;n\u00e3o na vagina&#8221;, zombam os estudante de medicina). O nervo de Bell, no peito, o m\u00fasculo de Santorini, na face, o ligamento de Poupart, na virilha, o tri\u00e2ngulo de Scarpa, na coxa&#8230; Voc\u00ea encontra, d\u00e1 nome \u00e0 descoberta. Esse ego\u00edsmo exuberante fez de n\u00f3s gloriosos Pante\u00f5es ambulantes para os maiores m\u00e9dicos de cinco s\u00e9culos. E por que n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse meio tempo os m\u00e9dicos fizeram a vontade da igreja, procurando a alma, por\u00e9m nem Sir Thomas Brown, da universidades de Oxford, Montpellier, P\u00e1dua e Leyden, conseguiu encontr\u00e1-la. Ren\u00e9 Descartes (1596-1660), que promoveu l\u2019homme-machine (o homem era um deux-chevaux, Deus, seu criador, com o Esp\u00edrito Santo no tanque), descobriu a alma na gl\u00e2ndula pineal, uma got\u00edcula atr\u00e1s do principal ventr\u00edculo do c\u00e9rebro. Ningu\u00e9m sabe o que faz a gl\u00e2ndula pineal, mas nos faz mais felizes \u00e0 luz clara do sol, portanto talvez ele estivesse certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Willian Harvey escreveu em Exercitatio Anatomica de Motu Cortis et Sanguinis in Animalibus:<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00c9 poss\u00edvel que o movimento do sangue no corpo se processe desse modo. Todas as partes devem ser alimentadas, aquecidas e ativadas pelo sangue, perfeitamente vaporoso, mais quente e, por assim dizer, nutriente. Por outro lado, em certas partes o sangue precisa ser resfriado, espessado e figurativamente usado. Dessas partes ele volta ao ponto de partida, ou seja, o cora\u00e7\u00e3o, como para a sua fonte ou o centro da economia do corpo, para ser restaurado ao seu estado anterior de perfei\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, com o calor natural, poderoso e abrasador, uma esp\u00e9cie de armaz\u00e9m de vida, ele \u00e9 reliquefeito e impregnado com esp\u00edritos e (se posso dizer assim), ado\u00e7ado. Do cora\u00e7\u00e3o ele \u00e9 redistribu\u00eddo. E tudo isso depende o movimento de pulsa\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, isso \u00e9 descrito desse modo:<\/p>\n<ul>\n<li>Exita\u00e7\u00e3o el\u00e9trica do cora\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Mioc\u00e1rdio em funcionamento (sem marcapasso)<\/li>\n<li>Altera\u00e7\u00f5es no potencial de membrana<\/li>\n<li>Fase 4<\/li>\n<li>Potencial de repouso (-90mV)<\/li>\n<li>Potencial pr\u00f3ximo do equil\u00edbrio-K<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cientificamente, embora seja deprimente, n\u00e3o passamos de sacos \u00e0 prova d\u2019\u00e1gua cheios de produtos qu\u00edmicos carregados de eletricidade, que um dia sofrem uma pane de for\u00e7a. Assim s\u00e3o os nossos c\u00e3es, os p\u00e1ssaros no jardim, os elefantes no zool\u00f3gico, os camundongos na cozinha, os peixinhos dourados, as lib\u00e9lulas nas rosas, a unicelular ameba que nos d\u00e1 desinteria, o v\u00edrus da gripe. Ao contr\u00e1rio deles, ao contr\u00e1rio at\u00e9 dos macacos que saltam de galho em galho, logo abaixo de n\u00f3s na \u00e1rvore da evolu\u00e7\u00e3o, n\u00f3s sabemos que vamos morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEste corpo n\u00e3o pode ser tudo que eu sou &#8211; esse \u00e9 o brado humano\u201d reconhece C. P. Snow. Assim a humanidade concebeu a vida eterna, de uma mistura de medo e vaidade. E Deus tornou-se uma feliz cria\u00e7\u00e3o humana, como Mickey Mouse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOnde h\u00e1 tr\u00eas m\u00e9dicos, h\u00e1 dois ateus\u201d, diz o prov\u00e9rbio medieval latino. Contudo, certamente qualquer m\u00e9dico ficaria agradavelmente surpreso se reacordasse numa nuvem, tocando harpa ao lado de Bertrand Russel, que filosofou com firmesa: \u201cQuando eu morrer, vou apodrecer\u201d, 97 anos antes que isso acontecesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nosso corpo \u00e9 o mesmo velho corpo do homem primitivo. \u00c9 sujeito \u00e0s mesmas velhas doen\u00e7as. Nossos cr\u00e2nios s\u00e3o ainda os mesmos nos quais os artigos bem &#8211; intencionados, com uma l\u00f3gica dolorosa, faziam buracos para aliviar dores de cabe\u00e7a ou libertar os dem\u00f4nios da loucura. As m\u00famias sofreram de apendicite, artrite e dentes estragados. 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