{"id":18978,"date":"2013-09-22T08:44:35","date_gmt":"2013-09-22T08:44:35","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=18978"},"modified":"2021-04-08T01:30:22","modified_gmt":"2021-04-08T01:30:22","slug":"medicina-pasteurizada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=18978","title":{"rendered":"Medicina pasteurizada"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Em 1856, a ind\u00fastria francesa de vinho praticamente fechou. Garrafa ap\u00f3s garrafa de vinho avinagrado era devolvida iradamente aos sommeliers, seu conte\u00fado despejado nos esgotos, quebradas com desespero contra a parede. A cerveja tamb\u00e9m estava horr\u00edvel. Os vinhateiros de Bordeaux chamaram o professor de qu\u00edmica de Lille, uma autoridade em fermenta\u00e7\u00e3o como Flaubert era, em Rouen, autoridade em adult\u00e9rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Louis Pasteur (1822-1895), do Jura, era filho de um curtidor de peles, veterano da <em>la grande arm\u00e9e<\/em>. Em 1864, Pasteur descobriu que aquela tr\u00e1gica acidifica\u00e7\u00e3o do vinho n\u00e3o era produzida por alguma qu\u00edmica maligna, mas por organismos microsc\u00f3picos vivos, gerados n\u00e3o pela pr\u00f3pria bebida agrad\u00e1vel, mas que estavam no ar. O desastre enol\u00f3gico podia ser evitado matando os organismos, o que podia ser feito aquecendo o lagar a 60 graus cent\u00edgrados. Aquelas safras t\u00e3o<em> bien chambr\u00e9es<\/em> foram consumidas com tanto al\u00edvio e alegria que a ind\u00fastria vin\u00edcola da Fran\u00e7a teve um lucro sem precedentes de 500 milh\u00f5es de francos naquele ano. Pasteur observou ent\u00e3o que os fermentos da boa cerveja eram esf\u00e9ricos, e os da cerveja azeda, el\u00edpticos, uma distor\u00e7\u00e3o provocada por micr\u00f3bios. Assim, ele pasteurizou a cerveja tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Na mesma \u00e9poca, os lucros anuais da ind\u00fastria francesa da seda ca\u00edram de 130 bilh\u00f5es para 8 milh\u00f5es, porque o bicho-da-seda contra\u00edra <em>p\u00e9brine<\/em>, doen\u00e7a da pimenta-negra. O bicho-da-seda gosta de amora, mas as planta\u00e7\u00f5es de amoreiras nas Montanhas G\u00e9vennes, do Languedoc, estavam se transformando em cidades fantasmas, atacadas pela vermiculite. Desesperados e confusos, os sericultores procuraram Pasteur.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Ele foi de Paris para Alais, no sul, e os presenteou com a descoberta de que a epidemia n\u00e3o era causada por um micr\u00f3bio vivo (era um protozo\u00e1rio, um organismo unicelular como a ameba, que provoca a desinteria, mas naquele momento ele n\u00e3o podia por as m\u00e3os nele). Pasteur descobriu outra doen\u00e7a, a <em>fl\u00e2cherie<\/em>, diarr\u00e9ia do bicho-da-seda. A cura para as duas consistia em separar os insetos que apresentavam os pontos cor-de-pimenta &#8211; os camponeses os guardavam em garrafas com conhaque, para mostrar aos entendidos &#8211; e higiene rigorosa da folha da amoreira. Logo o farfalhar da seda foi ouvido em nossa terra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00c9 reconfortante pensar que a g\u00eanese da anestesia foi o costume de cheirar \u201c\u00e9ter por <strong>bincadeira<\/strong>\u201d (n\u00e3o seria por brincadeira? est\u00e1 escrito assim no livro), e que a bacteriologia &#8211; com suas benevolentes ramifica\u00e7\u00f5es de inocula\u00e7\u00e3o e antibi\u00f3tico &#8211; foi um copo de vinho, uma caneca de cerveja e um belo vestido. Nossos instintos para o prazer t\u00eam seus efeitos colaterais positivos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Os gados bovinos e ovino da Fran\u00e7a estavam passado por uma fase terr\u00edvel, tamb\u00e9m. Estavam sendo dizimados pelo antrax, extremamente doloroso. Em 1881, a vaciona contra o antrax, de Pasteur, reduziu a mortalidade por essa doen\u00e7a a 1% entre as ovelhas e a 0,34% no gado bovino. Todas as galinhas apanharam c\u00f3lera. Pasteur viajou nos feriados e esqueceu no laborat\u00f3rio um esp\u00e9cie do fluido bacteriano que infectava as galinhas, e saiu para uns dias de descanso. Ele voltou para descobrir que sua cultura de bact\u00e9rias em crescimento tinha enfraquecido, e concluiu que era ideal para inocula\u00e7\u00e3o contra a epidemia &#8211; como durante outro feriado, que veremos mais adiante, num clima menos ameno, o bolor da penicilina cresceu satisfatoriamente para Alexander Fleming. \u00c9 muito inteligente ganhar o pr\u00eamio nobel <em>in absentia<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 0px 5px 5px 0px; float: left; cursor: pointer;\" title=\"Jupitile e o c\u00e3o - clique para amplair\" onclick=\"window.open('http:\/\/antonini.med.br\/img\/jupitile.jpg', 'pop', 'toolbar=0, location=0, directories=0, status=0, menubar=0, scrollbars=1, copyhistory=0, resizable=1, width=706, height=824, left=0, top=0'); if((navigator.appName=='Microsoft Internet Explorer' &amp;&amp; navigator.appVersion.substring(0,3)=='4.0')==false) pop.focus();\" alt=\"Jupitile e o c\u00e3o - clique para amplair\" src=\"http:\/\/antonini.med.br\/img\/jupitile.jpg\" width=\"200\" \/>Com a medula de c\u00e3es raivosos Pasteur criou a vacina que salvou a vida do garoto pastor Juptile, eternizado na est\u00e1tua que o mostra lutando contra um c\u00e3o raivoso, no 15\u00ba <em>arrondissement<\/em>. Ele enfeita o jardim nos fundos do Instituto Pasteur, onde est\u00e1 enterrado nosso descobridor de micr\u00f3bios vivos e da inocula\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para combater sua incessante campanha contra n\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">A mente de Pasteur foi a luz e o fim do t\u00fanel da infec\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o tinha come\u00e7o. O valor em dinheiro das suas descobertas foi usado pela Fran\u00e7a para completar a indeniza\u00e7\u00e3o exigida pela Alemanha pela guerra de 1870-1871. Pasteur teve uma vida simples, s\u00e9ria e espiritual, e fez tudo isso a despeito de ter sofrido um s\u00e9rio derrame, em 1868. Sua filha de 12 anos morreu de febre tif\u00f3ide, 15 anos antes de ser descoberto o germe dessa doen\u00e7a. A aplica\u00e7\u00e3o do seu g\u00eanio ao leite, no s\u00e9culo XX, fez com que o nome de Pasteur passasse a aparecer na soleira de todas as portas da Gr\u00e3-Bretanha.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1856, a ind\u00fastria francesa de vinho praticamente fechou. Garrafa ap\u00f3s garrafa de vinho avinagrado era devolvida iradamente aos sommeliers, seu conte\u00fado despejado nos esgotos, quebradas com desespero contra a parede. A cerveja tamb\u00e9m estava horr\u00edvel. 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