{"id":19011,"date":"2013-09-22T08:58:36","date_gmt":"2013-09-22T08:58:36","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=19011"},"modified":"2021-04-08T01:30:20","modified_gmt":"2021-04-08T01:30:20","slug":"a-morte-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=19011","title":{"rendered":"A morte negra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Agora as pulgas.<\/p>\n<p>Albert Camus, em 1947 come\u00e7ava <em>La Peste<\/em> falando sobre Oran:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>&#8220;Quando sa\u00eda da cirurgia,na manh\u00e3 de 16 de abril, o Dr. Bernard Rieux sentiu alguma coisa macia sob o p\u00e9. Era um rato morto bem no meio do patamar da escada. Num impulso de momento, ele o chutou para o lado e, sem pensar mais no caso, continuou a descer a escada. S\u00f3 quando estava na rua lembrou que n\u00e3o deveria haver um rato morto no andar de sua cirurgia.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando voltou para casa, naquela noite, o Dr. Rieux encontrou um rato quase morto, expelindo sangue pela boca. O animal deu um grito agudo e morreu. No dia seguinte havia tr\u00eas ratos mortos no seu corredor. Logo dezenas deles foram encontrados nas latas de lixo de Oran. Depois, milhares por toda a parte. No fim de duas semanas, num s\u00f3 dia, 6.231 ratos haviam sido queimados pelo servi\u00e7o sanit\u00e1rio. Dois dias depois, foram 8.000. O povo come\u00e7ou a ficar preocupado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como os ratos abandonam o navio que est\u00e1 naufragando, a pulga abandona o rato que est\u00e1 morrendo. Se o rato morre de peste, ent\u00e3o o micr\u00f3bio <em>Pasteurella pestis<\/em>, pequeno, gordo, que forma uma cadeia e que infesta o sangue da \u00faltima refei\u00e7\u00e3o da pulga, fica nauseado &#8211; que nojo! &#8211; quando a pulga pica o seguinte, quase sempre um homem. Da\u00ed a Morte Negra de 1348.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 0px 5px 5px 0px; float: left; cursor: pointer;\" title=\"Roupas dos m\u00e9dicos no combate \u00e0 peste bulb\u00f4nica - clique para ampliar\" onclick=\"window.open('http:\/\/antonini.med.br\/img\/peste_negra.jpg', 'pop', 'toolbar=0, location=0, directories=0, status=0, menubar=0, scrollbars=1, copyhistory=0, resizable=1, width=567, height=824, left=0, top=0'); if((navigator.appName=='Microsoft Internet Explorer' &amp;&amp; navigator.appVersion.substring(0,3)=='4.0')==false) pop.focus();\" alt=\"Roupas dos m\u00e9dicos no combate \u00e0 peste bulb\u00f4nica - clique para ampliar\" src=\"http:\/\/antonini.med.br\/img\/peste_negra.jpg\" width=\"200\" \/>A Morte Negra come\u00e7ou nas praias do montanhoso Lago Issyk-Kul, a leste do Mar de Aral, al\u00e9m do Tashkent, no canto entre a R\u00fassia e a China, ao norte do Himalaia. Em 1346, a Morte Negra estava matando indianos, arm\u00eanios, t\u00e1rtaros e curdos, o que n\u00e3o preocupou muito pessoa alguma na Europa. No ano seguinte ela chegou \u00e0 Crim\u00e9ia, depois a Messina, na Sic\u00edlia, levada pelos ratos das galeras genovesas. Em seguida, G\u00eanova, Pisa e Veneza. Depois disso, nada mais podia cont\u00ea-la. No natal de 1348 foi importada para a Inglaterra, atrav\u00e9s de Bristol, e um ano depois tinha varrido as Terras Altas da Esc\u00f3cia. Os m\u00e9dicos armaram-se com longos aventais de couro, luvas e prot\u00f3tipos das m\u00e1scaras contra gases do ano 1939, com \u00f3culos de aviador e anti-s\u00e9pticos arom\u00e1ticos no tubo de ar. Os pacientes queimava ervas e cantavam salmos. A mortalidade entre os religiosos que atendiam os doentes foi her\u00f3ica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi chamada Morte Negra porque os mortos ficavam pretos. Sangravam horrivelmente ao n\u00edvel da pele. Havia dois tipos, a bub\u00f4nica, com os g\u00e2nglios da virilha e das axilas intumescidos como laranjas podres, os terr\u00edveis \u201cbulbos\u201d, ou a pnem\u00f4nica, transmitida pela respira\u00e7\u00e3o, uma pneumonia hemorr\u00e1gica, com morte certa e r\u00e1pida. Boccaccio observa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>&#8220;Quantos homens valentes, quantas damas graciosas,<\/em><br \/>\n<em> tomavam o desjejum com a fam\u00edlia e naquela mesma noite<\/em><br \/>\n<em> jantavam com seus ancestrais no outro mundo&#8221;<\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Em covas abertas apressadamente eram enterrados os corpos putrefatos, malcheirosos e amea\u00e7adoras, 25 milh\u00f5es deles na Europa, um quarto da popula\u00e7\u00e3o. Metade de Londres pereceu, talvez umas 50.000 pessoas. Ningu\u00e9m sabia que causava a peste, mas acreditavam que os judeus estavam envenenando os po\u00e7os de \u00e1gua.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Teria sido t\u00e3o horr\u00edvel assim? Em 1988, dois cemit\u00e9rios de emerg\u00eancia cavados em 1348 foram encontrados em Londres, perto da Torre e em Smithfield. Eram longas filas em camadas sensatamente cobertas de terra, para n\u00e3o enterrar corpo sobre corpo. Os corpos eram cuidadosamente arrumados e cobertos com uma fina camada de terra, com sepulturas separadas para crian\u00e7as. Esses cemit\u00e9rios demonstrando um admir\u00e1vel senso tem previs\u00e3o dos respons\u00e1veis pela cidade, quando a peste come\u00e7ava a chegar, vinda do oeste do pa\u00eds. Os 12.400 ocupantes das valas &#8211; possivelmente a maior parte das v\u00edtimas de Londres &#8211; indicam que a trag\u00e9dia foi menor do que conta a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Durante a d\u00e9cada de 1330, a Europa j\u00e1 estava em recess\u00e3o econ\u00f4mica, o com\u00e9rcio praticamente estava parado e os pre\u00e7os caindo, guerras e desordens urbanas prejudicavam o com\u00e9rcio, a colheita era prec\u00e1ria e o pre\u00e7o dos alimentos subia como um foguete. Veio a fome, e os pobres comiam os cachorros. Pelo menos, a Morte Negra resolveu o problema da super-popula\u00e7\u00e3o da Europa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Depois da batalha de Bostworth,, em 1485, a coroa\u00e7\u00e3o de Henrique VII foi impedida pela doen\u00e7a do suor. Fui a \u00fanica coroa\u00e7\u00e3o adiada por causa de doen\u00e7a, at\u00e9 de Eduardo VII no ver\u00e3o de 1901. <em>Sudor Angelicus<\/em> era uma doen\u00e7a misteriosa. Os doentes suam e tremiam de frio, exalavam um cheiro estranho e desagrad\u00e1vel e morriam em um dia. Foi registrada por John Caius (1510-1573), o m\u00e9dico que transformou Gonville Hall, em Cambridge, em Gonville e Caius College , praticamente fazendo dele um col\u00e9gio de medicina. Caius foi m\u00e9dico da corte desde morrem nada de Henrique VIII at\u00e9 o de Elizabeth primeira, mas de uma aposta est\u00e1 na reforma. Os colegas de Caius descobriram seus trajes cat\u00f3licos e os queimaram em pra\u00e7a p\u00fablica, e ent\u00e3o ele levou seus colegas para pra\u00e7a p\u00fablica, presos ao tronco. Seu t\u00famulo na capela do col\u00e9gio diz apenas: <em>Fui Caius<\/em>. Ele escreveu tamb\u00e9m <em>Of the English Dogge<\/em>s.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Os sinos da praga sua cara outra vez em Londres, em 1563, dizimando 1\/5 todos seus 93.000 habitantes, em 1575, 1593, 1603, 1625.e 1636, cada vez diminuindo de 20.000 a popula\u00e7\u00e3o de Londres. A epidemia da Morte Negra mais comentada na literatura \u00e9 Grande Poste de Londres.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Em 1661 a peste voltou \u00e0 Turquia, em 1664 matou um quinto da popula\u00e7\u00e3o de Amsterd\u00e3 e chegou a Flandres. No m\u00eas de dezembro, dois franceses morreram em Drury Lane, e no m\u00eas de junho do ano seguinte, Samuel Pepys escrevia :<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>&#8220;Em Drury Lane eu vi duas ou tr\u00eas casas marcadas com uma cruz vermelha na porta, e a frase &#8221; o Senhor tenha piedade de n\u00f3s &#8220;-um triste espet\u00e1culo para mim, que o via pela segunda vez.&#8221;<\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ele comprou tabaco e mascou, para acalmar os nervo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A cruz vermelha regularmente tinha 30 cent\u00edmetros de altura, a casa era selada e vigiada por 40 dias, doentes e s\u00e3os aprisinados juntos, comida e medicamentos deixados medrosamente na frente da porta. Os \u00fanicos visitantes eram os bravos m\u00e9dicos que n\u00e3o haviam fugido de Londres com o rei, mulheres velhas, \u201cexaminadoras\u201d, cuja fun\u00e7\u00e3o consistia em descobrir os \u201csinais\u201d nos corpos dos mortos &#8211; manchas vermelhas na pele &#8211; para determinar do que tinham morrido, e os enfermeiros que roubavam dos corpos e \u00e0s vezes, impacientes, os estrangulavam ou passavam o pus de suas feridas nas pessoas s\u00e3s para mat\u00e1-las depois.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Nathaniel Hodges (1629-1688), m\u00e9dico que descrevia com jovialidade situa\u00e7\u00f5es mais tr\u00e1gicas, conta com humor o caso da enfermeira que, depois da morte de toda a fam\u00edlia que ela tratava, saiu da casa carregando os objetos roubados que caiu morta na rua. Outra enfermeira roubou a roupa do paciente agonizante. Mas ele se recuperou e voltou \u00e0 vida completamente nu.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">O Dr. Hodges tornou-se imune \u00e0 doen\u00e7a chupando peda\u00e7os de canela, enquanto examinava os pacientes, comendo grandes quantidades de carne assada e picles (&#8221; na verdade, naquele tempo melanc\u00f3lico havia na cidade grande abund\u00e2ncia de todas coisas as coisas boas dessa natureza &#8220;) tomando um copo de vinho branco, seco e forte, da Espanha, antes do jantar, mais alguns copos durante a refei\u00e7\u00e3o e depois do dia de trabalho &#8220;tomando com prazer minha bebida predileta, que me ajuda a dormir e proporcionava a respira\u00e7\u00e3o f\u00e1cil dos poros durante toda a noite. A gratid\u00e3o me obriga a fazer justi\u00e7a \u00e0s virtudes do vinho branco e sua merecida classifica\u00e7\u00e3o entre principais ant\u00eddotos &#8220;. Para ele, o melhor vinho era o de meia idade &#8211; limpo, fino, claro, vigoroso e com leve sabor de nozes.<b id=\"docs-internal-guid-32d77841-ea9b-8716-e89e-5327e76ba8e8\"> <\/b><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Nathaniel Hodges tratava seus pacientes com ra\u00edzes de Serpent\u00e1ria da Virg\u00ednia, sapo seco e doses da \u00e1gua da peste, do Col\u00e9gio dos M\u00e9dicos, uma mistura absurda de 21 medicamentos. Quando a peste terminou ele ficou sem pacientes, empobreceu, foi preso em Ludgate por d\u00edvidas e morreu na pris\u00e3o em 1688. Um exemplo dos perigos da especializa\u00e7\u00e3o radical.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tragam os seus mortos.!&#8221; Soava a voz nas ruas, acompanhada do dobre dos sinos, quando as ofertas eram atiradas aos montes nas valas. Os c\u00e3es, suspeitos de transmitir a peste, foram massacrados. Os ratos tiveram mais sorte. No \u00famido m\u00eas de setembro de 1665, quando em Londres morriam 12.000 pessoas por semana, os patriarcas da cidade mandaram acender fogueiras nas ruas durante tr\u00eas dias seguidos, para purificar o ar, mas o c\u00e9u, chorando seus mortos, as extinguiu. Os m\u00e9dicos n\u00e3o haviam concordado com essa ideia, que consideravam sup\u00e9rflua, teatral e dispendiosa. Exatamente um ano depois, o Grande Inc\u00eandio levou exatamente o mesmo tempo para provar que os m\u00e9dicos estavam errados.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">O relato de Daniel Defoe, <em>Di\u00e1rio do Ano da Peste<\/em>, publicado em 1007 \u00e0s 22, era uma art\u00edstica obra de fic\u00e7\u00e3o, como <em>Robson Crusoe<\/em>.<b id=\"docs-internal-guid-05536ac4-eaad-c9b4-66a1-2b9b33ece89d\"> <\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora as pulgas. 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