{"id":19393,"date":"2013-10-06T19:55:37","date_gmt":"2013-10-06T19:55:37","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=19393"},"modified":"2021-04-08T01:32:28","modified_gmt":"2021-04-08T01:32:28","slug":"o-lado-sombrio-da-web-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=19393","title":{"rendered":"O lado sombrio da web"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 0px 5px 5px 0px; float: left; cursor: pointer;\" title=\"Clique para ampliar\" onclick=\"window.open('http:\/\/antonini.med.br\/img\/lado-sombrio-da-web-inicial.jpg', 'pop', 'toolbar=0, location=0, directories=0, status=0, menubar=0, scrollbars=0, copyhistory=0, resizable=1, width=1020, height=695, left=0, top=0'); if((navigator.appName=='Microsoft Internet Explorer' &amp;&amp; navigator.appVersion.substring(0,3)=='4.0')==false) pop.focus();\" alt=\"Clique para ampliar\" src=\"http:\/\/antonini.med.br\/img\/lado-sombrio-da-web-inicial.jpg\" width=\"300\" \/>Sites que vendem drogas, rem\u00e9dios controlados e contrabando est\u00e3o onde o Google n\u00e3o chega e desafiam a lei com criptografia e meios an\u00f4nimos de pagamento. INFO entrou no submundo da internet para mostrar como funciona o tr\u00e1fico na chamada Deep Web<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cinco meses, a trajet\u00f3ria do portal Atlantis j\u00e1 pode ser comparada \u00e0 dos grandes sites de e-commerce. Desde seu lan\u00e7amento, em 14 de mar\u00e7o, o Atlantis registrou 600 mil d\u00f3lares em vendas, com quase 2 mil itens listados em 26 categorias. Sua atua\u00e7\u00e3o tem alcance global, e a equipe t\u00e9cnica trabalha para garantir a estabilidade da p\u00e1gina, apesar do aumento crescente no n\u00famero de acessos. Um sistema autom\u00e1tico de recomenda\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e1 nos planos. O objetivo \u00e9 dar aos usu\u00e1rios a melhor experi\u00eancia de compra, seguindo a estrat\u00e9gia de grandes companhias do varejo online, como Amazon e eBay. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre o novo portal e os grandes sites de com\u00e9rcio eletr\u00f4nico. O Atlantis vende drogas ilegais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A variedade de subst\u00e2ncias encontradas no site faz com que os cart\u00e9is internacionais de drogas pare\u00e7am coisa de amador. Coca\u00edna escama de peixe, haxixe marroquino, mescalina, pastilhas de ecstasy no formato de granadas, estampas multicoloridas de LSD e maconha, muita maconha. Afinal, esse \u00e9 o produto mais popular, com ex\u00f3ticas variedades da erva: neblina da amn\u00e9sia, sativa havaiana, diesel azedo. O portal oferece tamb\u00e9m rem\u00e9dios controlados, revistas er\u00f3ticas, documentos falsos, contrabando, livros sobre o cultivo de cogumelos alucin\u00f3genos e at\u00e9 uma inocente cole\u00e7\u00e3o do autor Dan Brown, de O C\u00f3digo Da Vinci. Bem-vindo ao submundo da internet.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As pessoas amam a conveni\u00eancia de comprar pela internet&#8221;, afirma Loera, um dos fundadores do site Atlantis, em entrevista a INFO. &#8220;Elas n\u00e3o precisam se encontrar com estranhos ou traficantes de rua, potencialmente perigosos. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma garantia de qualidade da mercadoria, com o nosso sistema de avalia\u00e7\u00e3o feita pelos usu\u00e1rios. Os produtos s\u00e3o extremamente puros no Atlantis, o que \u00e9 raro nas ruas.&#8221; Essa pureza a que se o fundador do Atlantis tem pre\u00e7o: 5 gramas de vi\u00fava branca, uma varia\u00e7\u00e3o de maconha holandesa, custam o equivalente a 240 reais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 como saber se Loera \u00e9 homem ou mulher nem em que pa\u00eds vive. O nome \u00e9 falso, e remete ao sobrenome de Joaqu\u00edn &#8220;El Chapo&#8221; Guzm\u00e1n Loera, chefe de um cartel mexicano de drogas chamado Sinaloa. O contato de Loera com a reportagem deu-se por meio de uma s\u00e9rie de e-mails trocados ao longo de junho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim do m\u00eas, depois que o marqueteiro do Atlantis, cujo sal\u00e1rio \u00e9 pago com a moeda virtual bitcoin, lan\u00e7ou uma pe\u00e7a publicit\u00e1ria no YouTube que repercutiu na imprensa internacional, a conversa passou a se dar por meio de um sistema de mensagens criptografadas. O v\u00eddeo de anima\u00e7\u00e3o postado pelo Atlantis no YouTube conta a hist\u00f3ria de um personagem chamado Charlie, que viaja muito a trabalho e acaba sem drogas. Ele descobre o site, compra a droga e fica &#8220;alto como uma pipa&#8221;. O v\u00eddeo foi logo retirado do ar pelo YouTube.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com o barulho causado pelo lan\u00e7amento do servi\u00e7o, os administradores do Atlantis n\u00e3o se mostram intimidados com a pol\u00edcia. &#8220;Queremos atrair aten\u00e7\u00e3o e mais clientes. As for\u00e7as da lei saber\u00e3o da gente, e provavelmente j\u00e1 sabem, independentemente da maneira como divulgamos nosso produto&#8221;, disse outro fundador do portal, que preferiu n\u00e3o se identificar, numa entrevista coletiva a usu\u00e1rios do site Reddit.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Decidimos investir tudo o que ganhamos para transformar o Atlantis no mercado n\u00famero 1&#8221;, afirma Loera. Para alcan\u00e7ar esse objetivo, o Atlantis precisa bater seu maior concorrente, o Silk Road, atual l\u00edder no com\u00e9rcio eletr\u00f4nico ilegal de drogas. Inaugurado em 2011, o site tem mais de 560 vendedores de drogas, de equipamentos de espionagem e de produtos de contrabando. O nome faz refer\u00eancia \u00e0 rota da seda, que ligou o com\u00e9rcio do extremo oriente, do norte da \u00c1frica \u00e0 Europa, no in\u00edcio da era crist\u00e3. Estima-se que a p\u00e1gina tenha movimentado 22 milh\u00f5es de d\u00f3lares somente em 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Silk Road mostrou que \u00e9 poss\u00edvel manter ativo esse tipo de neg\u00f3cio il\u00edcito&#8221;, disse a INFO Nicolas Christin, especialista em crimes cibern\u00e9ticos e professor da Universidade Carnegie Mellon, dos Estados Unidos. &#8220;Quando outras pessoas viram que, depois de dois anos, as autoridades n\u00e3o conseguiram tirar o Silk Road do ar, surgiu a possibilidade de competir.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nicolas Christin coletou dados do Silk Road ao longo de v\u00e1rios meses, de 2011 a 2012, para um estudo acad\u00eamico. De acordo com o levantamento, de 30 mil a 150 mil pessoas navegavam pelo site mensalmente at\u00e9 o fim do ano passado. Para garantir o anonimato de seus usu\u00e1rios, os administradores dos portais que vendem drogas investem em duas tecnologias principais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 deep web &#8211; Para entender como funciona a deep web, pense na internet pela qual voc\u00ea navega todos os dias: uma malha de documentos e arquivos ligados por hiperlinks, acessados por browsers como Chrome, Firefox, Internet Explorer e Safari.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas p\u00e1ginas web, no entanto, foram desenhadas de modo a n\u00e3o liberar o acesso vindo de uma conex\u00e3o normal nem se deixar indexar pelo Google ou por outros mecanismos semelhantes de busca. Esse conjunto de p\u00e1ginas e documentos foi batizado de deep web, ou rede profunda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es que utilizam a estrutura da deep web de forma l\u00edcita. Universidades, por exemplo, podem usar a rede n\u00e3o indexada para limitar o acesso a artigos acad\u00eamicos. H\u00e1 ainda redes secretas dispon\u00edveis apenas para as ag\u00eancias governamentais. Mas existe tamb\u00e9m o lado sombrio e ilegal da rede profunda, representado por f\u00f3runs para a discuss\u00e3o de terrorismo, pedofilia, sexo bizarro, al\u00e9m dos mercados de drogas, como Silk Road e Atlantis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pe\u00e7a fundamental nessa estrutura \u00e9 o Tor, porta de entrada para muitas dessas p\u00e1ginas. O sistema faz conex\u00e3o com os sites escondidos usando uma rede intrincada de servidores. Rastrear a origem do acesso \u00e9 quase imposs\u00edvel, o que garante o anonimato dos usu\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A organiza\u00e7\u00e3o WikiLeaks tamb\u00e9m depende dessa rede para que seus colaboradores continuem an\u00f4nimos. Todo o ciberativismo contra regimes opressores utiliza a deep web. &#8220;Qualquer comunica\u00e7\u00e3o sens\u00edvel precisa se manter an\u00f4nima&#8221;, diz Natalia Viana, jornalista brasileira que atuou no WikiLeaks.<\/p>\n<div class=\"imgwrapper\" style=\"width: 500px; margin: 5px auto; text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" style=\"cursor: pointer; display: block; text-align: center;\" onclick=\"window.open('http:\/\/antonini.med.br\/img\/lado-sombrio-da-web-bg.jpg', 'pop', 'toolbar=0, location=0, directories=0, status=0, menubar=0, scrollbars=0, copyhistory=0, resizable=1, width=1020, height=785, left=0, top=0'); if((navigator.appName=='Microsoft Internet Explorer' &amp;&amp; navigator.appVersion.substring(0,3)=='4.0')==false) pop.focus();\" alt=\"De forma simplificada, essa \u00e9 a diferen\u00e7a do acesso normal e o acesso pelo Tor - clique para ampliar\" src=\"http:\/\/antonini.med.br\/img\/lado-sombrio-da-web-bg.jpg\" width=\"500\" \/>De forma simplificada, essa \u00e9 a diferen\u00e7a do acesso normal e o acesso pelo Tor &#8211; clique para ampliar<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>1. Deepweb &#8211; A estrutura da rede profunda, um conjunto de p\u00e1ginas escondidas de navegadores comuns, como o Chrome, e dos rob\u00f4s de indexa\u00e7\u00e3o do Google, \u00e9 a \u00fanica maneira de acessar sites como o Silk Road e o Atlantis. O browser usado \u00e9 o Tor (The Onion Router). Com esse navegador, as conex\u00f5es da internet passam por uma rede labir\u00edntica de servidores, arquitetada especialmente para frustrar tentativas de monitoramento. O Tor tamb\u00e9m \u00e9 usado por ciberativistas e por qualquer um que queira navegar pela web sem ter sua identidade rastreada.2. Moedas criptogr\u00e1ficas &#8211; Usadas para fazer as transa\u00e7\u00f5es nos sites, moedas como bitcoin e litecoin n\u00e3o t\u00eam uma entidade central, como um banco, para controlar origem e destino. Os portadores dessas moedas criptogr\u00e1ficas podem fazer compras de forma an\u00f4nima, viabilizando as transa\u00e7\u00f5es ilegais.&#8221;O fundador do Silk Road foi vision\u00e1rio, por reunir essas tecnologias em um \u00fanico lugar&#8221;, diz a australiana Eileen Ormsby, dona do blog All Things Vice, especializado em deep web. Eileen refere-se ao Dread Pirate Roberts, criador do Silk Road, que usa o nome de um personagem do romance A Princesa Prometida, de William Goldman. &#8220;Havia mercados ilegais antes, mas nenhum t\u00e3o acess\u00edvel&#8221;, diz Eileen.<\/p>\n<p>Dread Pirate Roberts escreve avisos, d\u00e1 sua opini\u00e3o na comunidade e atualiza o c\u00f3digo do site. Pouco se sabe sobre ele, nem se h\u00e1 mais de uma pessoa por tr\u00e1s do apelido. Em sua assinatura no f\u00f3rum do Silk Road, h\u00e1 links para duas leituras recomendadas: O Novo Manifesto Libert\u00e1rio, no site Anarchism.net, e uma vers\u00e3o em PDF do livro Por uma Nova Liberdade, do te\u00f3rico libert\u00e1rio Murray N. Rothbard. &#8220;Ele \u00e9 uma figura muito carism\u00e1tica, e pensa que faz parte de uma revolu\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Eileen. A reportagem da INFO entrou em contato com Dread Pirate Roberts pelo sistema de mensagens privadas do f\u00f3rum, mas, em resposta, teve a conta banida.<\/p>\n<p>Na estrutura de vendas, Silk Road e Atlantis lembram o site de leil\u00f5es eBay. Nenhum deles faz venda direta ou mant\u00e9m um estoque pr\u00f3prio. Eles oferecem plataformas para a distribui\u00e7\u00e3o an\u00f4nima. Qualquer um pode anunciar seus produtos no site, desde que pague uma taxa de at\u00e9 500 d\u00f3lares. No Atlantis, o vendedor paga 50 d\u00f3lares de taxa. &#8220;Os vendedores s\u00e3o muito leais o Silk Road e suspeitam do Atlantis&#8221;, afirma Eileen. Feita a compra pelos sites, os traficantes usam os servi\u00e7os de correios para enviar a droga. Nessa etapa, n\u00e3o h\u00e1 criptografia que disfarce as subst\u00e2ncias ilegais do olfato de c\u00e3es farejadores e dos scanners dos postos de inspe\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, h\u00e1 um grande esfor\u00e7o desses portais ilegais para desenvolver t\u00e9cnicas de camuflagem para as drogas. No f\u00f3rum do Silk Road, por exemplo, existe uma \u00e1rea exclusiva para a discuss\u00e3o do tema. Ali, aprende-se que nem a selagem a v\u00e1cuo consegue evitar o vazamento de vapor das drogas depois de alguns dias. Usu\u00e1rios mais experientes recomendam embalagens de alum\u00ednio e filme PET, capazes de isolar gases por um bom tempo. Cart\u00f5es alsos de Natal e de anivers\u00e1rio que acondicionam a droga completam o disfarce. Outros membros falam em utilizar, como destinat\u00e1rios, o nome de antigos moradores do endere\u00e7o de entrega, para evitar que o comprador seja associado ao pacote a ser entregue.<\/p>\n<p>Um usu\u00e1rio an\u00f4nimo, que se diz funcion\u00e1rio do sistema americano de Correios, revela detalhes das inspe\u00e7\u00f5es. &#8220;Elas n\u00e3o acontecem todos os dias, a menos que haja um grande carregamento a caminho&#8221;, diz ele. &#8220;J\u00e1 vi cartas oferecidas aos cachorros. Nunca vi c\u00e3es farejarem a esteira, mas eles s\u00e3o sempre levados a carrinhos de encomendas internacionais.&#8221;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"margin: 0px 0px 5px 5px; float: right;\" alt=\"\" src=\"http:\/\/antonini.med.br\/img\/deep-web-1.jpg\" width=\"300\" \/>A reportagem da INFO falou com um vendedor de ecstasy e LSD de sucesso no Silk Road e no Atlantis. Ele pede que sua identidade n\u00e3o seja revelada, por raz\u00f5es \u00f3bvias, mas conta que mora na Austr\u00e1lia e fatura em torno de 20 mil d\u00f3lares americanos por m\u00eas usando o site. O australiano afirma que nunca vendeu drogas nas ruas e que acaba de abandonar o emprego para se dedicar totalmente ao tr\u00e1fico pela internet.<\/p>\n<p>&#8220;Percebi que faria mais dinheiro com isso&#8221;, diz. &#8220;Estou muito satisfeito agora. Meus clientes est\u00e3o felizes, e isso me faz sentir bem pelo que fa\u00e7o. Muitos dos meus amigos que vendiam nas ruas foram presos. Negociar pela internet \u00e9 muito mais seguro&#8221;, afirma o vendedor. \u00c9 para os Estados Unidos que vai quase metade do total das drogas vendidas no Silk Road, com 43,8% das encomendas, seguidos por Reino Unido (10,1%), Holanda (6,5%), Canad\u00e1 (5,8%) e Alemanha (4,5%).<\/p>\n<p>H\u00e1 ind\u00edcios de que pacotes comprados nessas p\u00e1ginas ilegais cheguem ao Brasil desde 2011. Um brasileiro escreveu, no f\u00f3rum do Silk Road, estar com medo de realizar sua primeira compra. Outro usu\u00e1\u00adrio responde em seguida: &#8220;N\u00e3o me preocuparia se fosse voc\u00ea. Comprei DMT (uma droga psicod\u00e9lica) da Holanda. Levou quase dois meses para chegar. Meu envelope foi entregue selado e intacto. N\u00e3o precisei assinar nada, porque foi enviado como um cart\u00e3o de anivers\u00e1rio.&#8221; A reportagem escreveu para mais de uma dezena de usu\u00e1rios brasileiros no f\u00f3rum do Silk Road, mas nenhum concordou em dar entrevista.<\/p>\n<p>No Brasil, os Correios n\u00e3o revelam estat\u00edsticas de apreens\u00e3o, mas a empresa detalha o esquema de checagem que implantou para detectar esse tipo de enco\u00ad menda. &#8220;Usamos equipamentos de raios X e espec\u00adtr\u00f4metros de massa&#8221;, diz a equipe de comunica\u00e7\u00e3o dos Correios, referindo\u00adse a m\u00e1quinas por onde passam as cartas, capazes de captar e identificar part\u00edculas de drogas ilegais. O sistema custou 209 milh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal investiga crimes na deep web desde o in\u00edcio de 2013. A divis\u00e3o de crimes cibern\u00e9ticos \u00e9 a respons\u00e1vel e apoia outras unidades, como a de combate ao tr\u00e1fico de drogas. &#8220;Essa \u00e9 uma ati\u00advidade recente&#8221;, diz o delegado Carlos Eduardo Miguel Sobral. &#8220;Sabemos que h\u00e1 crimes pratica\u00ad dos na rede n\u00e3o indexada, mas n\u00e3o h\u00e1 um buscador, como o Google, que nos ajude a acessar essas infor\u00ad ma\u00e7\u00f5es. Precisamos desenvolver outras t\u00e9cnicas.&#8221;<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Luciana Boiteux, coordenado\u00ad ra do Grupo de Pesquisas em Pol\u00edtica de Drogas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a chance de chegar a esse tipo de crime no Brasil \u00e9 remota. &#8220;A grande dificuldade \u00e9 a investiga\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Luciana. &#8220;A maioria das pris\u00f5es por tr\u00e1fico no pa\u00eds acontece em flagrante. Sites como o Silk Road invertem essa l\u00f3gica.&#8221; Apenas com a investiga\u00e7\u00e3o do processo de compra e entrega \u00e9 poss\u00edvel identificar os infratores.<\/p>\n<p>Um brasileiro que for pego por comprar drogas na internet pode ser enquadrado no Artigo 28 da Lei de T\u00f3xicos, que prev\u00ea advert\u00eancia, presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os \u00e0 comunidade e medidas educativas. No caso de venda, o infrator cai no Artigo 33, que prev\u00ea at\u00e9 15 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Se investigar consumidores e traficantes j\u00e1 \u00e9 um problema, fechar esses sites \u00e9 ainda mais complicado. O anonimato, tanto na comunica\u00e7\u00e3o como nos meios de pagamento, praticamente bloqueia o acesso das autoridades. Mas existem algumas brechas, segun\u00ad do o estudo de Nicolas Christin, da Carnegie Mellon.<\/p>\n<p>Uma ideia seria acabar com o anonimato oferecido pelo bitcoin, obrigando usu\u00e1rios a associar suas moedas a uma identidade existente. O proble\u00ad ma \u00e9 que alguns dos sites, como o Atlantis, j\u00e1 utilizam outras moedas criptogr\u00e1ficas alternativas.<\/p>\n<p>Outra sa\u00edda seria atacar diretamente os servidores desses e\u00adcommerces, direcionando vo\u00ad lumes anormais de tr\u00e1fego, em uma esp\u00e9cie de ataque hacker. Nos \u00faltimos meses, o Silk Road foi alvo desses golpes, que desestabilizaram a p\u00e1gina, tirando\u00ada do ar diversas vezes. Mas Dread Pirate Roberts foi capaz de contornar o problema.<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m sabe quem estava por tr\u00e1s desses ata\u00ad ques&#8221;, diz Eileen Ormsby, do blog All Things Vice. For\u00e7as do governo americano e o pr\u00f3prio Atlantis foram acusados pelos usu\u00e1rios do Silk Road, apesar de o concorrente negar. &#8220;Nunca usamos essas t\u00e1ticas contra a competi\u00e7\u00e3o, e nunca usaremos&#8221;, disse Loera, do Atlantis. &#8220;Admiramos tudo o que o Silk Road conquistou e lutamos a mesma batalha que eles.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os da pol\u00edcia e de ag\u00eancias de investiga\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia aponta para o surgimento de novos mercados an\u00f4nimos e online, e n\u00e3o para a extin\u00e7\u00e3o dos que existem. Al\u00e9m do Atlantis e do Silk Road, h\u00e1 pelo menos quatro outros em opera\u00e7\u00e3o: Sheep Market, Black Market Reloaded, Russian Anonymous Marketplace e Buy It Now. &#8220;Provavelmente esse vai se tornar um neg\u00f3cio multimilion\u00e1rio&#8221;, afirma Loera, do Atlantis. &#8220;Pensamos no longo prazo.&#8221;<\/p>\n<p>Para o professor Nicolas Christin, o Silk Road s\u00f3 perder\u00e1 a corrida se parar de inovar. &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o tecnol\u00f3gica. Podemos ver uma disputa semelhante \u00e0 do Facebook contra o MySpace. Vence quem tem as melhores ferramentas para o usu\u00e1rio&#8221;, afirma Christin. No come\u00e7o de julho, Dread Pirate Roberts anunciou mudan\u00e7as no c\u00f3digo para melhorar o sistema de pagamento do Silk Road, em resposta \u00e0s inova\u00e7\u00f5es da concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Esses sites que vendem todo tipo de droga ilegal mostram que existe um lado sombrio nos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos voltados para a navega\u00e7\u00e3o an\u00f4nima, que pode chegar ao crime organizado. &#8220;Vendedores de rua tamb\u00e9m compram nesses mercados virtuais, o que enfraquece o controle que as organiza\u00e7\u00f5es criminosas t\u00eam sobre eles&#8221;, diz o traficante australiano entrevistado por INFO.<\/p>\n<p>Para o engenheiro liban\u00eas Nadim Kobeissi, criador do software de bate-papo an\u00f4nimo Cryptocat, o crescimento dos portais ilegais \u00e9 um sintoma da evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e de como a sociedade se adapta a essa evolu\u00e7\u00e3o. &#8220;Qualquer um pode usar um carro de forma que viole a lei e at\u00e9 transform\u00e1-lo em bomba&#8221;, diz Kobeissi. &#8220;Assim como carros podem ser usados para o bem e para o mal, a tecnologia de privacidade tamb\u00e9m pode. N\u00e3o devemos permitir que nossos medos atrasem o progresso.&#8221; Mesmo que esse progresso esteja na venda de drogas ilegais? Essa discuss\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando.<\/p>\n<p>Esta mat\u00e9ria est\u00e1 na revista INFO de agosto. Assine INFO e receba todos os meses em sua casa uma edi\u00e7\u00e3o com o que h\u00e1 mais quente na tecnologia.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sites que vendem drogas, rem\u00e9dios controlados e contrabando est\u00e3o onde o Google n\u00e3o chega e desafiam a lei com criptografia e meios an\u00f4nimos de pagamento. INFO entrou no submundo da internet para mostrar como funciona o tr\u00e1fico na chamada Deep Web Em cinco meses, a trajet\u00f3ria do portal Atlantis j\u00e1 pode ser comparada \u00e0 dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-19393","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19393"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19393\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19397,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19393\/revisions\/19397"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}