{"id":22053,"date":"2014-05-27T03:39:39","date_gmt":"2014-05-27T03:39:39","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=22053"},"modified":"2021-03-31T21:29:36","modified_gmt":"2021-03-31T21:29:36","slug":"zelota-a-vida-e-a-epoca-de-jesus-de-nazare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=22053","title":{"rendered":"Zelota, A Vida e a \u00c9poca de Jesus de Nazar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Livro sobre a dimens\u00e3o hist\u00f3rica de Jesus, Zelota, do historiador iraniano Reza Aslan, defende a raiz pol\u00edtica da mensagem do nazareno. Obra vem causando pol\u00eamica em todo o mundo.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[singlepic id=1991 w=320 h=240 float=center]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus n\u00e3o \u00e9 um s\u00f3. H\u00e1 o Jesus de Nazar\u00e9, homem pobre, trabalhador bra\u00e7al, com todas as marcas de seu tempo, identificado com correntes contestadoras do dom\u00ednio romano na Palestina: um ser pol\u00edtico, de tend\u00eancias revolucion\u00e1rias, defensor da f\u00e9 judaica. E h\u00e1 tamb\u00e9m Jesus, o Cristo, que depois de sua morte foi chamado de o \u201cfilho de Deus\u201d, que est\u00e1 na base de uma nova religiosidade e fundou uma linhagem espiritual. Um Jesus da espada; um Jesus da paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados mais de 2 mil anos, o primeiro Jesus, um entre muitos messias que lutaram contra Roma e morreram na cruz, se tornou apenas uma sombra, o grande mestre do cristianismo, que tem sua obra descolada das origens pol\u00edticas para dar relevo \u00e0 mensagem de natureza religiosa e universal. O Jesus hist\u00f3rico \u00e9 principalmente um judeu, com as paix\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es de seu tempo. O Cristo que emerge dos evangelhos \u00e9 um mestre espiritual pac\u00edfico, que foi afastado de seu nacionalismo judaico para ser identificado com quest\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o deste mundo. Um Jesus que os romanos podiam aceitar sem temor de vingan\u00e7a pelo massacre de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um Jesus da pol\u00edtica e um Jesus da f\u00e9.<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 a tese central do livro Zelota \u2013 A vida e a \u00e9poca de Jesus de Nazar\u00e9, de Reza Aslan, livro que vem causando pol\u00eamica. A explica\u00e7\u00e3o do desconforto e rea\u00e7\u00e3o iracunda de alguns leitores \u00e9, mais uma vez, pol\u00edtica: Reza Aslan \u00e9 iraniano e mu\u00e7ulmano. Depois de bate-bocas em programas de televis\u00e3o nos Estados Unidos e rejei\u00e7\u00e3o por parte de cr\u00edticos cat\u00f3licos, o autor se viu em meio a situa\u00e7\u00f5es de preconceito que envolvem os temas ligados \u00e0 sua origem e f\u00e9. Pareceu, a seus cr\u00edticos, que Reza Aslan escreveu seu livro para atacar o cristianismo e enxergar nele uma matriz revolucion\u00e1ria que mistura pol\u00edtica e religi\u00e3o, o que seria caracter\u00edstica de sua interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Afinal, com alguma honestidade, os mu\u00e7ulmanos sabem que hist\u00f3ria e religi\u00e3o n\u00e3o se separam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Reza, que foi crist\u00e3o na juventude e mora em Nova York, \u00e9 um especialista em hist\u00f3ria das religi\u00f5es, formado em Harvard e autor de obras importantes sobre o tema. Seu livro n\u00e3o \u00e9 um ataque a Jesus, muito menos sofre de excesso de interpreta\u00e7\u00e3o baseado em poucos fatos. Ao contr\u00e1rio, trata-se de um livro de hist\u00f3ria, erudito e extremamente leg\u00edvel, sustentado por ampla bibliografia. Cada cap\u00edtulo ganha, ao final do trabalho, um verdadeiro ensaio bibliogr\u00e1fico atualizado, que sustenta as afirma\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es do autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A busca da pluralidade de fontes se justifica. Sabemos muito pouco sobre o Jesus hist\u00f3rico a partir de depoimentos de seus contempor\u00e2neos. Os primeiros testemunhos escritos sobre Jesus de Nazar\u00e9 v\u00eam das ep\u00edstolas de Paulo, escritas pelo menos 20 anos depois da morte de Jesus. Em seguida v\u00eam os evangelhos, que, com exce\u00e7\u00e3o de Lucas, nem sequer foram escritos pela pessoa que os nomeia (um caso t\u00edpico de obras pseudoepigr\u00e1ficas, comuns no mundo antigo) e datam de d\u00e9cadas depois da morte de Jesus. Em outras palavras, os evangelhos n\u00e3o foram escritos por testemunhas oculares da palavras e a\u00e7\u00f5es de seu personagem central: s\u00e3o obras de uma comunidade de f\u00e9. N\u00e3o s\u00e3o fato, s\u00e3o reconstru\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas. Ou seja, eles nos dizem sobre Jesus, o Cristo, mas nada esclarecem sobre Jesus, o homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reza Aslan mostra como foram escritos os evangelhos can\u00f4nicos (Marcos, Mateus, Lucas e Jo\u00e3o), exp\u00f5e suas contradi\u00e7\u00f5es, esclarece sobre as fontes (entre elas o Q), al\u00e9m de revelar a origem de uma verdadeira biblioteca de escritores n\u00e3o can\u00f4nicos, sobretudo a partir do s\u00e9culo 2, que apresentam novas perspectivas sobre a vida de Jesus de Nazar\u00e9. Mas \u00e9 ao agregar outras fontes \u2013 sobre a hist\u00f3ria de Jerusal\u00e9m, a religi\u00e3o judaica e o Imp\u00e9rio Romano \u2013 que o autor d\u00e1 a dimens\u00e3o de seu projeto. O que seu livro revela \u00e9 uma hist\u00f3ria dos primeiros s\u00e9culos, tendo Jesus como foco. De certa forma, pode-se ler Zelota como uma biografia pol\u00edtica de Jesus e seu tempo. Mais ainda: uma investiga\u00e7\u00e3o sobre os motivos que levaram com que o Jesus hist\u00f3rico fosse substitu\u00eddo pelo Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quarta filosofia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo do livro j\u00e1 uma pista. Zelota vem de zelo, uma inspira\u00e7\u00e3o para movimentos t\u00edpicos dos judeus contr\u00e1rios ao dom\u00ednio romano na regi\u00e3o. Esp\u00e9cie de quarta filosofia \u2013 ao lado dos filisteus, saduceus e ess\u00eanios \u2013, os zelotas compunham um partido que tinha com compromisso inabal\u00e1vel com a liberta\u00e7\u00e3o de Israel do jugo romano e com a afirma\u00e7\u00e3o do Deus \u00fanico dos judeus. Zelo: era isso que reivindicavam para si, um cumprimento rigoroso da Tor\u00e1 e a recusa a servir a qualquer outro mestre. Ser zeloso era, desta forma, seguir as pegadas dos her\u00f3is do passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, o que era hero\u00edsmo para os judeus era crime para os romanos. O autor vai mostrar como se dava essa dif\u00edcil conviv\u00eancia, com o dom\u00ednio pol\u00edtico na m\u00e3o de Roma e o comando religioso a cargo do sacerdote do templo. A descri\u00e7\u00e3o do Templo de Jerusal\u00e9m \u00e9 impressionante, com sua movimenta\u00e7\u00e3o humana, supersti\u00e7\u00f5es, jogos de poder, f\u00e9 e at\u00e9 centro de neg\u00f3cios, como um verdadeiro banco a fazer circular o dinheiro de v\u00e1rias regi\u00f5es. O templo era ainda espa\u00e7o de negocia\u00e7\u00e3o entre o ocupante e povo subjugado, preso ainda aos pesados impostos devidos a Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram comuns os profetas que se insurgiam contra esta ordem. Considerados messias (a categoria abrangia centenas de pessoas dispostas a anunciar o fim do dom\u00ednio romano e conclamar \u00e0 revolta), esses homens eram her\u00f3is para seu povo, mas bandidos para Roma. Eram geralmente presos, torturados e mortos de forma violenta, decapitados ou crucificados. Jesus foi um desses messias. Como explica Aslan, a placa na cruz de Jesus, com os dizeres \u201cRei dos judeus\u201d, n\u00e3o era um sarcasmo, mas uma sinaliza\u00e7\u00e3o do crime pelo qual estava sendo crucificado. O crime de Jesus foi buscar o poder pol\u00edtico. Possivelmente, o mesmo crime do \u201cbom\u201d e do \u201cmau\u201d ladr\u00e3o mortos a seu lado. Ladr\u00e3o talvez seja uma tradu\u00e7\u00e3o para a palavra grega lestai, que significa bandido, a mesma designa\u00e7\u00e3o dada ao insurrecto Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zelota \u00e9 rico em informa\u00e7\u00f5es. O autor leva para o contexto original situa\u00e7\u00f5es que hoje fazem parte de uma rica mitologia, como a profiss\u00e3o de Jesus, suas origens familiares, o local de seu nascimento, os milagres, a rela\u00e7\u00e3o com Jo\u00e3o Batista, o poder de Herodes, o nascimento virginal, a escolha dos ap\u00f3stolos, as disc\u00edpulas, o debate de Jesus com os rabinos, a expuls\u00e3o dos comerciantes do templo etc. Algumas palavras atribu\u00eddas a Jesus, como as proferidas acerca do poder de C\u00e9sar (\u201ca C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar, a Deus o que \u00e9 de Deus\u2019\u2019) ganham novo significado: deixam de ser um reconhecimento da separa\u00e7\u00e3o entre mat\u00e9ria e esp\u00edrito para se afirmar como cobran\u00e7a da devolu\u00e7\u00e3o da terra ocupada aos judeus, seus leg\u00edtimos donos por determina\u00e7\u00e3o de Deus a seus filhos diletos. O que soava como universal era na realidade uma defesa particular da heran\u00e7a de um povo em sua alian\u00e7a com o criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que o Jesus que nos legou a tradi\u00e7\u00e3o surge separado de seu povo e de suas reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, t\u00e3o claras quando se examina a hist\u00f3ria separada das envolt\u00f3rias da f\u00e9? Para Reza Aslan, depois de combater por d\u00e9cadas as insurrei\u00e7\u00f5es, o governo central de Roma envia tropas que dizimam o templo e escravizam o povo, massacrando tudo que encontraram pelo caminho. Uma devasta\u00e7\u00e3o completa, que destr\u00f3i Jerusal\u00e9m e expulsa seu povo da terra de seus antepassados. A partir do ano 70 d.C., exilados da terra prometida por seu Deus, os judeus passam a viver como p\u00e1rias e entre pag\u00e3os do Imp\u00e9rio Romano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma opera\u00e7\u00e3o levada adiante pelos rabinos, a partir do s\u00e9culo 2, vai criar um div\u00f3rcio entre o juda\u00edsmo nacionalista messi\u00e2nico (que levou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m) e a f\u00e9 judaica, que se volta para dentro, na tradi\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo rab\u00ednico. O livro substitui o templo. Outro movimento vai atingir os crist\u00e3os, que para tamb\u00e9m se separar da identifica\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de sua origem, e com o objetivo de afastar a viol\u00eancia do poder romano, passam a transformar Jesus de um judeu revolucion\u00e1rio em um l\u00edder espiritual pac\u00edfico. O que era interesse pol\u00edtico e terreno passa a ser causa espiritual e salva\u00e7\u00e3o para uma outra vida. Algumas d\u00e9cadas depois da morte de Jesus, os seguidores n\u00e3o judeus de Cristo eram muito mais numerosos que os seguidores judeus. Em um s\u00e9culo, a liga\u00e7\u00e3o entre juda\u00edsmo e cristianismo desapareceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zelota busca a recupera\u00e7\u00e3o do Jesus hist\u00f3rico. Para isso, com as armas da pesquisa e da interpreta\u00e7\u00e3o, questiona supersti\u00e7\u00f5es, limpa floreios liter\u00e1rios, faz a genealogia de textos e d\u00e1 a real dimens\u00e3o ao que \u00e9 fato hist\u00f3rico e o que \u00e9 teologia e mito. Pode parecer uma empresa question\u00e1vel, j\u00e1 que o Jesus da f\u00e9 venceu e se tornou hoje a realidade para centenas de milh\u00f5es de pessoas. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o precisa de outra justificativa que n\u00e3o a busca da verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus foi um l\u00edder revolucion\u00e1rio \u2013 talvez o maior de todos os tempos \u2013 e um l\u00edder espiritual, ao mesmo tempo. Os dois universos n\u00e3o se separavam. Que o Jesus hist\u00f3rico, judeu, zelota e revolucion\u00e1rio, em sua luta permanente contra as injusti\u00e7as, surja rico de significa\u00e7\u00e3o humana \u00e9 um alento a mais para quem tem f\u00e9 em Jesus, o Cristo. E um exemplo a ser seguido pelos que n\u00e3o creem, mas querem um mundo melhor ainda nesta vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Zelota \u2013 A vida e a \u00e9poca de Jesus de Nazar\u00e9<\/strong><br \/>\n\u2022 De Reza Aslan<br \/>\n\u2022 Editora Record<br \/>\n\u2022 304 p\u00e1ginas, R$ 36,90<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mat\u00e9ria original <a href=\"http:\/\/botequimcultural.com.br\/critica-zelota-a-vida-e-a-epoca-de-jesus-de-nazare\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.livrariasaraiva.com.br\/produto\/5672817\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Comprar na Saraiva<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro sobre a dimens\u00e3o hist\u00f3rica de Jesus, Zelota, do historiador iraniano Reza Aslan, defende a raiz pol\u00edtica da mensagem do nazareno. 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