{"id":22296,"date":"2014-07-07T16:43:44","date_gmt":"2014-07-07T16:43:44","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=22296"},"modified":"2021-04-02T05:03:45","modified_gmt":"2021-04-02T05:03:45","slug":"a-narrativa-ausente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=22296","title":{"rendered":"A narrativa ausente"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDecifra-me ou devoro-te!\u201d O eco do desafio mitol\u00f3gico da esfinge de Tebas acompanha a divulga\u00e7\u00e3o das sondagens eleitorais. <!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na etapa final da campanha, n\u00e3o existem enigmas dif\u00edceis: a trajet\u00f3ria das inten\u00e7\u00f5es de voto diz tudo o que importa. Contudo, nas etapas pr\u00e9vias, o panorama \u00e9 mais complexo. Os analistas t\u00eam destacado as informa\u00e7\u00f5es sobre a vontade de mudan\u00e7a do eleitorado e os \u00edndices de rejei\u00e7\u00e3o da presidente que busca a reelei\u00e7\u00e3o. S\u00e3o dados relevantes na equa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o deveriam obscurecer um outro, que configura um paradoxo: o crescimento das inten\u00e7\u00f5es de voto nos candidatos de oposi\u00e7\u00e3o continua longe de refletir a vontade majorit\u00e1ria de mudan\u00e7a. Se n\u00e3o interpretarem corretamente o paradoxo, os oposicionistas oferecer\u00e3o a Dilma Rousseff um triunfo que ela n\u00e3o pode obter por suas pr\u00f3prias for\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicamente, o PSDB e o PSB asseguram que o crescimento das candidaturas de A\u00e9cio Neves e Eduardo Campos \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo \u2013 ou seja, de exposi\u00e7\u00e3o no hor\u00e1rio eleitoral. Na hip\u00f3tese benigna, eles n\u00e3o acreditam nisso, mas falam para animar suas bases. A hip\u00f3tese maligna \u00e9 que se refugiam no pensamento m\u00e1gico, acalentando o sonho de uma vit\u00f3ria por default. De um modo ou de outro, parecem longe de admitir o que as sondagens eleitorais insistem em demonstrar: ambos carecem de uma narrativa pol\u00edtica capaz de traduzir o desejo majorit\u00e1rio de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A candidatura de Eduardo Campos sofre de um mal de origem. O ex-governador de Pernambuco era, at\u00e9 ontem, um \u201ccompanheiro de viagem\u201d do lulismo, e sua vice, Marina Silva, fez carreira pol\u00edtica no PT, ainda que sua dissid\u00eancia j\u00e1 tenha uma hist\u00f3ria. Desse mal decorre um fr\u00e1gil discurso eleitoral: a \u201cterceira via\u201d, ao menos na vers\u00e3o de Campos, \u00e9 um elogio do \u201clulismo sem Dilma\u201d. O discurso viola a verdade pol\u00edtica, pois o governo Dilma representa, em todos os sentidos, o prolongamento dos mandatos de Lula. De mais a mais, \u00e9 inveross\u00edmil, pois o eleitorado aprendeu que \u201cLula \u00e9 Dilma\u201d e \u201cDilma \u00e9 Lula\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A candidatura de A\u00e9cio Neves sofre de um mal distinto, evidenciado nas campanhas presidenciais de Geraldo Alckmin, em 2006, e de Jos\u00e9 Serra, em 2010: o PSDB n\u00e3o sabe explicar o motivo pelo qual quer governar o pa\u00eds. Oito anos atr\u00e1s, Alckmin apostou suas chances na tecla da den\u00fancia de corrup\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quatro anos, Serra investiu nas suas qualidades pessoais (a \u201cexperi\u00eancia\u201d) e no tema da \u201cgest\u00e3o eficiente\u201d. A despolitiza\u00e7\u00e3o do discurso dos tucanos refletiu-se na apagada atua\u00e7\u00e3o parlamentar de A\u00e9cio, que nem sequer tentou transformar sua tribuna no Senado em polo de difus\u00e3o de uma mensagem oposicionista. N\u00e3o \u00e9 fortuito que, a essa altura da corrida presidencial, suas inten\u00e7\u00f5es de voto permane\u00e7am t\u00e3o abaixo dos \u00edndices de rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 candidatura de Dilma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PSDB tem algo a aprender com o PT. Nos seus anos de oposi\u00e7\u00e3o, o PT construiu uma narrativa sobre o governo e a sociedade que, mesmo se mistificadora, sintetizava uma cr\u00edtica fundamental \u00e0s pol\u00edticas de FHC e indicava um rumo de mudan\u00e7a. Naquele tempo, o PT dizia que os tucanos governavam para a elite, acentuavam as desigualdades sociais e, no programa de privatiza\u00e7\u00f5es, queimavam o patrim\u00f4nio p\u00fablico no altar dos neg\u00f3cios privados. O PSDB desperdi\u00e7ou seus anos de oposi\u00e7\u00e3o sem fazer a defesa do legado de FHC, propiciando a cristaliza\u00e7\u00e3o da narrativa petista. Consequ\u00eancia disso, n\u00e3o formulou uma cr\u00edtica de conjunto aos governos lulopetistas, limitando-se a aguardar que, num passe de m\u00e1gica, o poder retornasse \u00e0s suas m\u00e3os. Agora, A\u00e9cio s\u00f3 triunfar\u00e1 se produzir, em escassos meses, a narrativa que seu partido n\u00e3o elaborou ao longo de 12 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lula disse, v\u00e1rias vezes, e com raz\u00e3o, que \u201cos ricos nunca ganharam tanto dinheiro como nos seus governos\u201d. O PT governa para a elite, subsidiando pesadamente o grande capital privado enquanto distribui migalhas do banquete para os pobres, a fim de comprar seus votos. O contraste entre os valores envolvidos no Bolsa Empres\u00e1rio e os disp\u00eandios no Bolsa Fam\u00edlia contam uma hist\u00f3ria sobre o lulismo que o PSDB ocultou enquanto fingia fazer oposi\u00e7\u00e3o. Ter\u00e1 A\u00e9cio a coragem de exp\u00f4-la, mesmo \u00e0s custas de desagradar ao alto empresariado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos tr\u00eas mandatos do lulopetismo, o governo promoveu o consumo de bens privados, descuidando-se da gera\u00e7\u00e3o de bens p\u00fablicos. Os manifestantes de junho de 2013 foram rotulados pelo PT como \u201cdespolitizados\u201d por apontarem essa contradi\u00e7\u00e3o, levantando as bandeiras da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade (\u201cescolas e hospitais padr\u00e3o Fifa\u201d). No fundo, as multid\u00f5es que ocuparam as ruas at\u00e9 serem expulsas pelos v\u00e2ndalos e depredadores estavam tomando uma posi\u00e7\u00e3o sobre as fun\u00e7\u00f5es do Estado. Ter\u00e1 A\u00e9cio a lucidez de reacender esse debate, do qual o PSDB foge sempre que o PT menciona a palavra \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sistema pol\u00edtico do pa\u00eds vive um longo outono, putrefazendo-se diante de todos. A \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d oferecida pelo PT \u00e9 uma reforma pol\u00edtica que acentuaria seus piores aspectos, junto com a rendi\u00e7\u00e3o do Congresso \u00e0 press\u00e3o dos \u201cconselhos participativos\u201d. Mas a raiz da crise cr\u00f4nica est\u00e1 fora do sistema pol\u00edtico: encontra-se na pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, aberta de par em par \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o pelos partidos pol\u00edticos. A\u00e9cio promete operar uma cirurgia puramente simb\u00f3lica, reduzindo o n\u00famero de minist\u00e9rios. Ter\u00e1 ele a ousadia de, desafiando o conjunto da elite pol\u00edtica, propor um corte profundo, radical, no n\u00famero de cargos p\u00fablicos de livre indica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ano passado, ouvi de uma assessora econ\u00f4mica tucana a profecia de que, antes do fim da Copa, um colapso econ\u00f4mico provocado pela invers\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria americana decidiria a elei\u00e7\u00e3o presidencial brasileira. Era um sintoma da persist\u00eancia do pensamento m\u00e1gico que hipnotiza o PSDB desde a ascens\u00e3o de Lula \u00e0 presid\u00eancia. N\u00e3o: o Planalto n\u00e3o cair\u00e1 no colo de A\u00e9cio. Para triunfar, ele precisa oferecer ao pa\u00eds uma narrativa pol\u00edtica coerente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dem\u00e9trio Magnoli \u00e9 soci\u00f3logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado em 03\/07\/2014 | Dem\u00e9trio Magnoli<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDecifra-me ou devoro-te!\u201d O eco do desafio mitol\u00f3gico da esfinge de Tebas acompanha a divulga\u00e7\u00e3o das sondagens eleitorais.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-22296","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22296","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22296"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22296\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22301,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22296\/revisions\/22301"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}