{"id":22706,"date":"2014-08-28T23:35:19","date_gmt":"2014-08-28T23:35:19","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=22706"},"modified":"2021-04-02T05:03:40","modified_gmt":"2021-04-02T05:03:40","slug":"a-sociedade-segundo-marina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=22706","title":{"rendered":"A sociedade, segundo Marina"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No registro do lugar-comum, Dilma Rousseff \u00e9 associada com qualificativos como rude, r\u00edspida, mandona e autorit\u00e1ria.<!--more--> No mesmo registro, atribui-se a Marina Silva qualidades opostas: suavidade, do\u00e7ura, flexibilidade, reflex\u00e3o. A gerente tecnocr\u00e1tica, de um lado; a fil\u00f3sofa da \u201cnova pol\u00edtica\u201d, do outro. O lugar-comum \u00e9 a nota\u00e7\u00e3o do mundo das apar\u00eancias. Os primeiros passos de Marina como candidata presidencial oferecem ind\u00edcios de que o contraste \u00e9 uma m\u00e1 caricatura \u2013 e, ainda, de uma similitude fundamental entre as duas candidaturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marina rejeitou participar das campanhas de Lindbergh Farias (PT-RJ), Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e Beto Richa (PSDB-PR), apoiados pelo PSB, sob o curioso argumento de que sua aus\u00eancia desses palanques fora previamente acordada com Eduardo Campos. O gesto equivale a selecionar exclusivamente os produtos que lhe interessam: da prateleira do presente, ela fica com a posi\u00e7\u00e3o de candidata presidencial; da prateleira do passado, com um acordo aplic\u00e1vel apenas a uma postulante \u00e0 vice-presid\u00eancia. Das fagulhas da manobra oportunista acendeu-se uma fogueira no PSB. Mas a luz desse fogo ilumina algo mais relevante: a cren\u00e7a de Marina de que uma pureza singular proporciona-lhe liberdades pol\u00edticas excepcionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na r\u00e9plica \u00e0 pergunta de um jornalista encontram-se pistas na mesma dire\u00e7\u00e3o. Indagada sobre sua perman\u00eancia no PSB caso triunfe na corrida ao Planalto, Marina saiu-se com uma n\u00e3o resposta, articulada na forma de um longo desvio em torno das balizas da \u201cnova pol\u00edtica\u201d. Ao sonegar a informa\u00e7\u00e3o, a candidata circunda uma d\u00favida leg\u00edtima de todos os eleitores: afinal, o voto nela tem o potencial de sagrar uma presidente do PSB ou da Rede? Contudo, para al\u00e9m da constata\u00e7\u00e3o de que Marina refugia-se em ambiguidades dignas da \u201cvelha pol\u00edtica\u201d, a n\u00e3o resposta cont\u00e9m um elemento mais esclarecedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 pergunta, a candidata replicou, hieraticamente: \u201cN\u00f3s n\u00e3o devemos tratar o presidente como propriedade de um partido. A sociedade est\u00e1 dizendo que quer se apropriar da pol\u00edtica. E as lideran\u00e7as pol\u00edticas precisam entender que o Estado n\u00e3o \u00e9 o partido, e o Estado n\u00e3o \u00e9 o governo\u201d. Em tudo isso, h\u00e1 um sopro de justa avers\u00e3o \u00e0 putrefata elite pol\u00edtica brasileira \u2013 e uma cr\u00edtica pertinente \u00e0 indistin\u00e7\u00e3o lulopetista entre Estado, governo e partido. Entretanto, o n\u00facleo do racioc\u00ednio situa-se na palavra \u201csociedade\u201d, traduzida de modos diversos pelas diferentes correntes de pensamento pol\u00edtico. O que \u00e9 a \u201csociedade\u201d, segundo Marina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Margaret Thatcher, \u201cessa coisa de sociedade n\u00e3o existe\u201d. De acordo com o polo ultraliberal, existem apenas indiv\u00edduos que realizam interc\u00e2mbios no mercado. No extremo oposto, encontra-se o polo neocorporativista, que define a sociedade como um conjunto de \u201ccoletivos\u201d legitimados por um selo estatal. O lulopetismo coagulou essa concep\u00e7\u00e3o pelo Decreto 8.243, que institui a \u201cdemocracia participativa\u201d e normatiza os \u201cconselhos de pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d. No fundo, o governo est\u00e1 dizendo que a sociedade \u00e9 uma extens\u00e3o do Estado, o ente respons\u00e1vel pela sele\u00e7\u00e3o dos \u201cmovimentos sociais\u201d convidados a se sentar \u00e0 volta das mesas de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas e Marina? Dois meses atr\u00e1s, a ent\u00e3o candidata a vice defendeu a subst\u00e2ncia do Decreto 8.243, que ressurge numa vers\u00e3o preliminar de seu programa de governo. A vida pol\u00edtica de Marina organizou-se ao redor de suas rela\u00e7\u00f5es com uma cole\u00e7\u00e3o de ONGs. Seu partido chama-se Rede para marcar uma dist\u00e2ncia com o sistema pol\u00edtico-partid\u00e1rio. Teia de movimentos, de ONGs \u2013 eis o sentido do nome cunhado pelos \u201cmarineiros\u201d. Na senten\u00e7a \u201ca sociedade quer se apropriar da pol\u00edtica\u201d, n\u00e3o \u00e9 abusivo ler que o Estado deve estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o preferencial com as ONGs \u201cmarineiras\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira vista, a Marina \u201cdoce\u201d, \u201cflex\u00edvel\u201d e \u201creflexiva\u201d concorda com um princ\u00edpio caro ao lulopetismo \u2013 ou seja, \u00e0 \u201cr\u00edspida\u201d, \u201cmandona\u201d e \u201cautorit\u00e1ria\u201d Dilma. Tanto uma quanto a outra, ao que parece, imaginam-se portadoras da prerrogativa de falar pela \u201csociedade\u201d. A diferen\u00e7a residiria no detalhe: os \u201cmovimentos sociais\u201d do lulopetismo n\u00e3o s\u00e3o os mesmos que os do \u201cmarinismo\u201d. Nessa linha de racioc\u00ednio, n\u00e3o \u00e9 casual que Marina sinta-se \u00e0 vontade para ignorar as alian\u00e7as do partido cuja sigla ostenta diante dos eleitores e para desdenhar da indaga\u00e7\u00e3o sobre sua filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria na eventualidade da vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo o poder \u00e0s ONGs! \u2013 \u00e9 isso a \u201cnova pol\u00edtica\u201d cantada no verso dif\u00edcil de Marina? O lulopetismo degradou as institui\u00e7\u00f5es da democracia representativa, especialmente o Congresso, em nome de uma \u201cdemocracia participativa\u201d que funciona como met\u00e1fora de seu pr\u00f3prio poder. Nessa moldura, o projeto de uma \u201cnova pol\u00edtica\u201d vertebrada pelos movimentos \u201cmarineiros\u201d significaria mais continuidade que ruptura \u2013 e o \u201cnovo\u201d seria t\u00e3o somente um disfarce eleitoral do \u201cvelho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 cedo demais, por\u00e9m, para formular diagn\u00f3sticos definitivos. Marina \u00e9 uma obra aberta, no sentido positivo da express\u00e3o. A evolu\u00e7\u00e3o do pensamento \u201cmarineiro\u201d expressou-se, em 2010, por uma narrativa avessa ao sectarismo, capaz de tecer elogios paralelos \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de FHC e \u00e0s pol\u00edticas contra a mis\u00e9ria de Lula. Hoje, na candidata comprometida com a restaura\u00e7\u00e3o da credibilidade do trip\u00e9 de pol\u00edtica macroecon\u00f4mica, h\u00e1 poucos tra\u00e7os da senadora petista que votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Um sintoma da abertura \u00e0 mudan\u00e7a apareceu em suas \u00faltimas declara\u00e7\u00f5es, segundo as quais \u201caprofundar a democracia significa a valoriza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es\u201d, e no alerta de que a vers\u00e3o preliminar do programa n\u00e3o passou pelo seu crivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A candidatura de Marina surfa na onda imensa de indigna\u00e7\u00e3o popular contra a \u201cvelha pol\u00edtica\u201d \u2013 ou seja, a ordem de coisas que estimula o consumo privado sem produzir bens p\u00fablicos. Nem por isso ela deve ser autorizada a utilizar o refr\u00e3o da \u201cnova pol\u00edtica\u201d como instrumento de prestidigita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Dem\u00e9trio Magnoli \u00e9 soci\u00f3logo. <\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"?p=19259\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No registro do lugar-comum, Dilma Rousseff \u00e9 associada com qualificativos como rude, r\u00edspida, mandona e autorit\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-22706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22706"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22706\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22713,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22706\/revisions\/22713"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.ddns.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}