{"id":27393,"date":"2016-08-16T16:24:26","date_gmt":"2016-08-16T16:24:26","guid":{"rendered":"http:\/\/192.168.1.4\/midia\/?p=27393"},"modified":"2021-04-08T01:53:23","modified_gmt":"2021-04-08T01:53:23","slug":"e-possivel-estimular-o-cerebro-humano-para-melhora-lo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=27393","title":{"rendered":"\u00c9 poss\u00edvel estimular o c\u00e9rebro humano para melhor\u00e1-lo?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27476\" src=\"http:\/\/200.98.71.50\/blogmed\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/cerebro-e1471516275803.png\" alt=\"cerebro\" width=\"560\" height=\"315\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A aplica\u00e7\u00e3o de correntes el\u00e9tricas leves no c\u00e9rebro pode aliviar dores, auxiliar os mecanismos de mem\u00f3ria e melhorar a aten\u00e7\u00e3o \u2013 e os militares dos EUA est\u00e3o muito interessados nisso.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ver\u00e3o de 2010, Ryan Clark torceu o tornozelo durante uma aula de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Foi doloroso, mas o grande problema foi a inconveni\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o. Ele usou muletas por uma semana e seu tornozelo sarou. Ent\u00e3o, seis semanas depois, a dor voltou, mas dessa vez estava muito pior. Ryan acabou em uma cadeira de rodas, incapaz de suportar a agonia que era andar naquelas condi\u00e7\u00f5es. Rem\u00e9dios e reabilita\u00e7\u00e3o ajudaram e, cerca de seis semanas depois, ele se recuperou. Mas ele se machucou novamente, e depois se feriu mais uma vez, e a cada pequeno acidente a dor evolu\u00eda para algo terr\u00edvel e insuport\u00e1vel. \u201cEram apenas machucados normais para algu\u00e9m de nove anos de idade\u201d, diz o pai de Ryan, Vince, \u201cmas para ele eram um supl\u00edcio. Al\u00e9m da dor, ele come\u00e7ou a ter tremores. Seus m\u00fasculos travavam. Ele passou a ter espasmos no corpo inteiro e tudo o que ele podia fazer era se deitar no ch\u00e3o, enrolado como um gato\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ryan acabou sendo diagnosticado com <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%ADndrome_complexa_de_dor_regional\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">s\u00edndrome complexa de dor regional<\/a>, uma doen\u00e7a que afeta uma em um milh\u00e3o de crian\u00e7as da idade dele. Vince Clark, que dirige o Centro de Psicologia Cl\u00ednica e Neuroci\u00eancia da Universidade do Novo M\u00e9xico, em Albuquerque, mergulhou nos estudos para compreender a s\u00edndrome e encontrar formas de ajudar Ryan. Analg\u00e9sicos tradicionais n\u00e3o traziam al\u00edvio, ent\u00e3o Clark come\u00e7ou a pensar naquilo que ele vinha pesquisando em seu laborat\u00f3rio, a chamada<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Estimula%C3%A7%C3%A3o_transcraniana_por_corrente_cont%C3%ADnua\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estimula\u00e7\u00e3o transcraniana por corrente cont\u00ednua<\/a> (ETCC), que envolve a aplica\u00e7\u00e3o de leves correntes el\u00e9tricas na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/gizmodo.uol.com.br\/mensagem-cerebro-distancia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>&gt;&gt;&gt; MAIS SOBRE O ASSUNTO: Cientistas conseguem enviar mensagens entre c\u00e9rebros que est\u00e3o a 7.000km de dist\u00e2ncia<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ETCC pertence a um grupo de t\u00e9cnicas que, por n\u00e3o envolverem cirurgia, s\u00e3o conhecidas como \u201cestimula\u00e7\u00e3o cerebral n\u00e3o invasiva\u201d. Ainda \u00e9 uma t\u00e9cnica experimental, mas em 2010 j\u00e1 havia revelado seu potencial n\u00e3o apenas para aliviar a dor, mas tamb\u00e9m para impulsionar o funcionamento do c\u00e9rebro e melhorar a mem\u00f3ria e a capacidade de aten\u00e7\u00e3o em pessoas saud\u00e1veis. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD) imaginou que isso poderia beneficiar os militares. Na mesma \u00e9poca que Ryan ficou doente, Clark tinha liderado estudos, financiados pelo DoD, que exploravam a estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica do c\u00e9rebro, e produziu resultados notavelmente bons.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Royal College of Surgeons<\/em>, Londres, janeiro de 1803. Uma plateia assiste com expectativa ao rebelde cientista italiano <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Giovanni_Aldini\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Giovanni Aldini <\/a>caminhando a passos largos para a sala. Mais algu\u00e9m est\u00e1 sendo exibido na frente deles: o corpo de George Foster, um assassino condenado, que fora enforcado mais cedo na pris\u00e3o Newgate. Usando uma bateria primitiva e conectando bielas, Aldini aplicou uma corrente el\u00e9trica no cad\u00e1ver. Para a surpresa dos espectadores, ele se contorceu e se sacudiu. Em resposta ao est\u00edmulo retal, um de seus punhos pareceu dar um soco no ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clark me contou que Aldini estava fascinado pelos efeitos da eletricidade tanto no corpo quanto na mente. Depois de alegar ter curado um fazendeiro deprimido de 27 anos usando estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, Aldini tentou us\u00e1-la em pacientes com \u201cloucura melanc\u00f3lica\u201d no <em>Sant\u2019Orsola Hospital<\/em>, em Bolonha. Ele n\u00e3o conseguiu sucesso completo, em parte porque os pacientes ficaram apavorados com os equipamentos do cientista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os experimentos de Aldini com eletricidade foram o come\u00e7o de um longo e lend\u00e1rio epis\u00f3dio na hist\u00f3ria da psiquiatria. A <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Eletroconvulsoterapia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">eletroconvulsoterapia<\/a>, que exige correntes fortes o bastante para causar convuls\u00f5es, foi introduzida no final dos anos 1930. Mas com o surgimento de novos tratamentos efetivos usando rem\u00e9dios, al\u00e9m da cr\u00edtica p\u00fablica em livros como <a href=\"http:\/\/www.skoob.com.br\/livro\/4911-um_estranho_no_ninho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Um Estranho no Ninho<\/em><\/a>, de Ken Kesey, as terapias el\u00e9tricas ca\u00edram em desuso. \u201cEm algum ponto, nossa cultura ficou preocupada com a eletricidade e seus efeitos\u201d, diz Clark. \u201cEra algo assustador. H\u00e1 uma ansiedade geral acerca do assunto, e as pessoas n\u00e3o est\u00e3o dispostas a olhar para ele de uma forma calma, racional\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/gizmodo.uol.com.br\/consciencia-on-off\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">&gt;&gt;&gt; SAIBA MAIS: A ci\u00eancia parece ter descoberto como funciona o mecanismo que desliga a consci\u00eancia<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clark fica animado ao recontar a ascens\u00e3o, queda e subsequente reascens\u00e3o da estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica do c\u00e9rebro. Enquanto o uso da eletricidade em humanos era vista com desaprova\u00e7\u00e3o, neurocientistas ainda estudavam seus efeitos em animais. \u201cV\u00e1rios dos meus professores da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o tinham brincado com os efeitos da eletricidade em tecidos vivos\u201d, conta Clark. Nos anos 1960, cientistas descobriram que o ETCC, que envolve correntes at\u00e9 mil vezes mais fracas do que aquelas usadas na eletroconvulsoterapia, poderia afetar a excitabilidade das c\u00e9lulas do c\u00e9rebro e ajudar em casos de depress\u00e3o severa. Mas rem\u00e9dios ainda pareciam mais promissores nos tratamentos psiqui\u00e1tricos, e o ETCC foi abandonado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nos anos 1980, a terapia de eletrochoque ressurgiu. Ficou claro que ela poderia ajudar a tratar alguns pacientes com depress\u00e3o severa, para quem as drogas n\u00e3o tinham efeito. Nessa mesma \u00e9poca estava crescendo o interesse em uma t\u00e9cnica chamada <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Estimula%C3%A7%C3%A3o_magn%C3%A9tica_transcraniana_repetitiva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estimula\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica transcraniana repetitiva (EMTr)<\/a>. Um paciente passando por EMTr se senta, sem se mexer, enquanto uma varinha erguida acima de seu cr\u00e2nio gera um campo magn\u00e9tico que penetra o c\u00e9rebro. Isso pode aliviar a depress\u00e3o e ajudar na reabilita\u00e7\u00e3o ap\u00f3s um derrame ou ferimento na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2000, Michael Nitsche e Walter Paulus da Universidade de G\u00f6ttingen, na Alemanha, relataram que o ETCC pode alterar a reposta de algu\u00e9m a est\u00edmulos magn\u00e9ticos. Enquanto o EMTr acende \u00e0 for\u00e7a as c\u00e9lulas do c\u00e9rebro, o ETCC \u201cprepara a bomba\u201d, tornando mais prov\u00e1vel que as c\u00e9lulas do c\u00e9rebro acendam como resposta a est\u00edmulos, conforme descreve Michael Weisend, um antigo colega de Clark.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudos da G\u00f6ttingen reacenderam o interesse dos neurocientistas pelo ETCC. Mas o que gerou coment\u00e1rios foram as descobertas acidentais de que o ETCC poderia mudar o funcionamento do c\u00e9rebro n\u00e3o apenas nos pacientes, mas tamb\u00e9m em pessoas saud\u00e1veis, que haviam sido inclu\u00eddas nos testes apenas para fins de compara\u00e7\u00e3o. Esse trabalho foi de grande influ\u00eancia, diz Clark. Os pesquisadores come\u00e7aram a investigar o potencial do ETCC para impulsionar c\u00e9rebros saud\u00e1veis e os resultados mostraram que a t\u00e9cnica poderia aumentar\u00a0 a capacidade de\u00a0 aprendizado e a mem\u00f3ria. Outras equipes se voltaram para o uso do ETCC no tratamento da dor. Como muitos de seus colegas, Clark achou isso fascinante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de um p\u00f3s-doutorado no Instituto Nacional de Sa\u00fade Mental dos EUA, trabalhando parte do tempo no EMTr, Clark se mudou para Albuquerque, em uma nomea\u00e7\u00e3o conjunta da Universidade do Novo M\u00e9xico e da Rede de Pesquisas da Mente (MRN), um instituto de pesquisa sem fins lucrativos. O trabalho do cientistas focava em <a href=\"http:\/\/pt.slideshare.net\/jbarbo00\/mtodos-de-imagiologia-cerebral-presentation\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">imagiologia cerebral<\/a> e esquizofrenia. Em 2006, ele foi promovido a diretor cient\u00edfico da MRN. Clark estava ansioso para trabalhar com ETCC, mas tamb\u00e9m precisava livrar o MRN de suas dificuldades financeiras. O instituto estava gastando demais. \u201cN\u00f3s est\u00e1vamos em um buraco negro financeiro\u201d, ele diz. \u201cPrecis\u00e1vamos de muito dinheiro, e r\u00e1pido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/gizmodo.uol.com.br\/nicolelis-futuro-cerebro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">&gt;&gt;&gt; NO BRASIL: Nicolelis, a Copa e o futuro do c\u00e9rebro<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta dessa \u00e9poca, a <em>Defense Advanced Research Projects Agency<\/em> (DARPA), a parte do DoD respons\u00e1vel pelo desenvolvimento de novas tecnologias para uso militar, fez uma chamada para propostas de pesquisa em uma \u00e1rea que apelidaram de \u201cAprendizado Acelerado\u201d. Uma chamada gen\u00e9rica como essa atrai ideias de cientistas de todos os EUA, cada um deles esperando pelos d\u00f3lares do DoD. Clark e o MRN seguiram o fluxo. \u201cN\u00f3s montamos uma proposta para o uso do ETCC. E ela foi financiada. E um monte de dinheiro veio rapidamente. Um monte de gente teve seus empregos salvos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 claro que, para Clark, a preserva\u00e7\u00e3o dos empregos trazida por esse influxo de dinheiro (que, no final, totalizou seis milh\u00f5es de d\u00f3lares) ajudou a justificar o uso de fundos militares. Ele fala de forma positiva sobre o modo como o DARPA faz neg\u00f3cios. \u201cEu realmente gosto da filosofia deles. Eles querem promover pesquisas de ponta que s\u00e3o muito arriscadas; um risco de 90% de falha \u00e9 algo perfeitamente aceit\u00e1vel no portf\u00f3lio deles, porque os 10% que funcionam v\u00e3o mudar o mundo. N\u00f3s temos sorte de estar nesses 10%\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brian Coffman sorri de forma tranquilizadora, enquanto me leva para uma pequena sala. Ele j\u00e1 fez ETCC muitas vezes, diz, e j\u00e1 administrou em cerca de trezentas pessoas at\u00e9 o momento. Algumas delas relatam coceira, calor e formigamento, mas nada s\u00e9rio. Raramente, algu\u00e9m fica com dor de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coffman, um estudante de PhD que trabalha com Clark, usa fita adesiva para prender o eletrodo c\u00e1todo n\u00e3o-estimulante ao meu bra\u00e7o esquerdo e o \u00e2nodo, que fornece a corrente, \u00e0 lateral da minha cabe\u00e7a, entre minha orelha e meu olho. Esse posicionamento \u00e9 planejado para maximizar a corrente que \u00e9 levada at\u00e9 a regi\u00e3o-alvo do meu c\u00e9rebro. Os eletrodos est\u00e3o dentro de esponjas que foram encharcadas em \u00e1gua salgada condutora, ent\u00e3o um pouco de solu\u00e7\u00e3o salina escorre pelo meu rosto. Eles est\u00e3o conectados por fios a uma bateria de 9 volts. Quando Coffman liga a bateria, eu sinto uma pequena fa\u00edsca em meu bra\u00e7o. Descarga est\u00e1tica, ele explica, e pede desculpas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Coffman elevou a corrente at\u00e9 dois miliamperes, o n\u00edvel m\u00e1ximo usado na maior parte dos estudos de ETCC, eu fiquei com uma sensa\u00e7\u00e3o de coceira no bra\u00e7o, mas foi s\u00f3 isso. Coffman se certifica de que estou confort\u00e1vel, ent\u00e3o sou colocada para fazer uma tarefa no computador. O software se chama DARWARS, e foi serve para ajudar os recrutas do ex\u00e9rcito a se familiarizarem com os tipos de ambiente que eles podem encontrar no Oriente M\u00e9dio. Clark e sua equipe o modificaram, adicionando alvos escondidos em metade das 1.200 cenas est\u00e1ticas. Imagens bastante cruas geradas por computador aparecem rapidamente, mostrando blocos de apartamentos abandonados, estradas desertas ou ruas cheias de estandes de quitandeiros. Eu tenho que apertar bot\u00f5es em um teclado para indicar se na cena h\u00e1 ou n\u00e3o alguma amea\u00e7a. \u00c0s vezes, ela \u00e9 bem \u00f3bvia. Na maior parte do tempo, n\u00e3o. Um per\u00edodo de treino ajuda o usu\u00e1rio a aprender o que pode ser perigoso e o que provavelmente \u00e9 benigno. Quando eu n\u00e3o vejo um combatente inimigo que est\u00e1 parcialmente escondido, ent\u00e3o um dos meus parceiros virtuais desce \u00e0 terra e eu sou advertido verbalmente: \u201cSoldado, voc\u00ea deixou escapar uma amea\u00e7a. Voc\u00ea acaba de perder um membro de seu pelot\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o senti que a estimula\u00e7\u00e3o tenha me ajudado, mas depois Coffman me disse que minha performance melhorou ap\u00f3s a estimula\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o significa nada, cientificamente, mas eu posso pelo menos atestar que, ainda que eu n\u00e3o tenha sentido minha mente mais afiada durante ou ap\u00f3s o ETCC, eu tamb\u00e9m n\u00e3o tive quaisquer efeitos negativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A equipe do MRN usou esse software em parte da pesquisa financiada pelo DARPA. Primeiro, eles obtiveram imagens dos c\u00e9rebros dos volunt\u00e1rios, para ver quais regi\u00f5es estavam ativas conforme eles aprendiam a identificar amea\u00e7as. Ent\u00e3o, eles aplicaram \u00e0 regi\u00e3o cr\u00edtica, o c\u00f3rtex frontal inferior, uma corrente direta de dois miliamperes por 30 minutos. Foi descoberto que o est\u00edmulo cortou pela metade o tempo que levava para os volunt\u00e1rios aprenderem. Isso foi uma grande surpresa, diz Clark. \u201cA maior parte dos estudos com ETCC n\u00e3o conseguem um efeito t\u00e3o grande. Muitos s\u00e3o question\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27477\" src=\"http:\/\/200.98.71.50\/blogmed\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/eletroencefalo-e1471516370625.jpg\" alt=\"eletroencefalo\" width=\"560\" height=\"254\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma das cr\u00edticas que v\u00eam sendo feitas ao ETCC: nem sempre os resultados s\u00e3o t\u00e3o bons. Clark est\u00e1 convencido que isso \u00e9 porque muitos estudos n\u00e3o envolveram a obten\u00e7\u00e3o de imagens dos c\u00e9rebros primeiro, para identificar as regi\u00f5es que realmente precisavam de estimula\u00e7\u00e3o. \u201cMuitos confiam no senso comum de como o c\u00e9rebro foi feito para ser organizado. Eu percebi, em 33 anos olhando para o c\u00e9rebro, que n\u00f3s ainda temos muito o que aprender\u201d, ele diz. Michael Weisend, que colaborou com o estudo, concorda. Ele chama o trabalho com imagiologia de \u201co tempero secreto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A despeito dos resultados impressionantes, o feedback dos colegas n\u00e3o foi un\u00e2nime. E Clark estava, na \u00e9poca, se sentindo desconfort\u00e1vel com v\u00e1rias coisas, sendo que a maior delas eram seus benfeitores, de onde vinha o dinheiro que financiava a pesquisa do cientistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEla \u00e9 grande. Ah, sim, \u00e9 grande\u201d, concorda Estella Holmes, rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da For\u00e7a A\u00e9rea americana, que acabou de me dar uma carona de minivan para dentro da Base de Wright-Patterson. Wright-Patt, como a base parece ser chamada por todo mundo que conhece o lugar, \u00e9 perto de Dayton, Ohio. \u00c9 a maior de todas as bases da For\u00e7a A\u00e9rea americana, empregando cerca de 26 mil pessoas. Ela \u00e9 rica em hist\u00f3ria. Foi nessa \u00e1rea que <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Irm%C3%A3os_Wright\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Wilbur e Orville Wright<\/a> conduziram seus experimentos pioneiros com voo. O que eles ajudaram a come\u00e7ar continuou aqui, no Laborat\u00f3rio de Pesquisa da For\u00e7a A\u00e9rea (AFRL).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O AFRL inclui a 711\u00aa Ala de Desenvolvimento Humano, cuja miss\u00e3o \u00e9 \u201cdesenvolver o desempenho humano no ar, no espa\u00e7o e no ciberespa\u00e7o\u201d. A Wright-Patt \u00e9 t\u00e3o grande que nem mesmo Holmes tem total certeza de aonde estamos indo. N\u00f3s tivemos que pedir informa\u00e7\u00f5es a um aviador que estava passando. Ele est\u00e1 fardado, mesmo sendo segunda-feira. Nas segundas, Holmes tinha me informado, o protocolo \u00e9 usar o uniforme azul, a n\u00e3o ser que algum servi\u00e7o sujo esteja agendado. Quando n\u00f3s entramos, no entanto, todo mundo est\u00e1 em fardas comuns. Um grupo de aviadores est\u00e1 em uma reuni\u00e3o informal num caf\u00e9 no \u00e1trio, enquanto outros est\u00e3o pra l\u00e1 e pra c\u00e1 em suas tarefas. Antigos cirurgi\u00f5es gerais da For\u00e7a A\u00e9rea inspecionam seus quadros pendurados em uma parede longa. A atmosfera est\u00e1 silenciosamente movimentada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/gizmodo.uol.com.br\/varredura-do-cerebro-em-3d\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>&gt;&gt;&gt; MAIS SOBRE O C\u00c9REBRO: Varredura em 3D mostra as conex\u00f5es entre os neur\u00f4nios<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando um homem jovem se aproxima de n\u00f3s, deslocado n\u00e3o apenas por estar em roupas civis (um terno desencanado\/moderno), mas por usar o cabelo longo e um cavanhaque. Eu fico momentaneamente chocada. \u201cQuando conheci Andy, ele parecia ser um militar na ativa, enquanto eu tinha um rabo de cavalo at\u00e9 a altura do meu cinto\u201d, Weisend me contou depois. \u201cEu gosto de pensar que o trouxe para o caminho do cabelo comprido e fico orgulhoso disso!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andy McKinley \u00e9 o parceiro de pesquisas de Weisend e o principal pesquisador interno de ETCC dos militares, liderando um laborat\u00f3rio na Ala de Performance Humana. Seu pai era um engenheiro biom\u00e9dico do Laborat\u00f3rio de Pesquisa da For\u00e7a A\u00e9rea americana. \u201cEu acho que segui os passos dele\u201d, diz McKinley. \u201cEu tamb\u00e9m gosto da possibilidade de que minha pesquisa possa levar ao desenvolvimento de tecnologias que possam continuar nos dando vantagem estrat\u00e9gica militar e aprimorar a seguran\u00e7a nacional\u201d. Ele se juntou \u00e0 equipe dois anos depois de terminar a faculdade e come\u00e7ou investigando os efeitos da gravidade alta sobre a performance cognitiva dos pilotos. Depois de um PhD em engenharia biom\u00e9dica, com neuroci\u00eancia como campo secund\u00e1rio de estudos, ele come\u00e7ou a trabalhar com estimula\u00e7\u00e3o cerebral n\u00e3o invasiva. \u201cN\u00f3s come\u00e7amos a reparar que muito da literatura m\u00e9dica sugere que o funcionamento cognitivo pode ser aprimorado\u201d, ele diz. \u201cE, particularmente em grupos de controle, que s\u00e3o pessoas normais e saud\u00e1veis. N\u00f3s come\u00e7amos a pensar: se isso pode ajudar esses participantes saud\u00e1veis, podemos us\u00e1-la como um instrumento de interven\u00e7\u00e3o nas for\u00e7as armadas, para ajudar a melhorar a fun\u00e7\u00e3o cognitiva\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">McKinley tem entre seis e dez pessoas trabalhando com ele (o n\u00famero flutua caso ele tenha ou n\u00e3o estudantes em est\u00e1gio de ver\u00e3o). At\u00e9 onde ele sabe, sua equipe \u00e9 a \u00fanica nas for\u00e7as armadas dos EUA, ou em quaisquer outras, investigando a estimula\u00e7\u00e3o n\u00e3o invasiva do c\u00e9rebro. Outros pa\u00edses certamente est\u00e3o interessados: O Laborat\u00f3rio de Pesquisa e Ci\u00eancia da Defesa do Reino Unido, parte do Minist\u00e9rio da Defesa, est\u00e1 pagando por pesquisas da Universidade de Bangor, no Pa\u00eds de Gales, que tratam da possibilidade do ETCC ampliar a capacidade de observa\u00e7\u00e3o, e financiando estudantes de PhD da Universidade de Nottingham para conduzir estudos sobre o aumento da cogni\u00e7\u00e3o e na performance, em parte usando ETCC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ETCC \u00e9 uma tecnologia incomum, j\u00e1 que seus efeitos em pessoas saud\u00e1veis foram descobertos por acidente. Ent\u00e3o, a pesquisa de McKinley tem duas frentes: a primeira \u00e9 o melhor entendimento da neuroci\u00eancia b\u00e1sica. A segunda \u00e9 o desenvolvimento de utiliza\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia da minha visita, um teste de ETCC est\u00e1 acontecendo em um dos laborat\u00f3rios menores de McKinley. Um aviador est\u00e1 sentado de frente para um monitor, preso por eletrodos, sua jaqueta pendurada nas costas de sua cadeira. S\u00edmbolos em forma de avi\u00e3o ficam entrando no espa\u00e7o a\u00e9reo [mostrado em seu monitor]. Ele tem que decidir se o avi\u00e3o que est\u00e1 chegando \u00e9 amigo ou inimigo. Se for inimigo, ele deve enviar um alerta. Se o inimigo for embora, tudo bem. Se n\u00e3o for, deve ser derrubado. O laborat\u00f3rio est\u00e1 em sil\u00eancio, fora os bips conforme ele aperta os bot\u00f5es e os estrondos quando o m\u00edssil virtual destr\u00f3i um avi\u00e3o que se recusou a cooperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tarefa obviamente envolve tomada de decis\u00f5es, mas tamb\u00e9m tem um elemento f\u00edsico \u201cmotor\u201d: voc\u00ea precisa apertar os bot\u00f5es na sequ\u00eancia correta e tem que fazer isso rapidamente, para conseguir uma boa pontua\u00e7\u00e3o. Depois de um tempo, esse tipo de tarefa fica bastante autom\u00e1tico. \u201cQuando voc\u00ea est\u00e1 aprendendo a andar de bicicleta ou com algum ve\u00edculo manual, seu processo \u00e9 muito consciente, porque voc\u00ea est\u00e1 pensando em todos os passos. Mas, conforme voc\u00ea faz com mais frequ\u00eancia, isso se torna mais e mais inconsciente\u201d, diz McKinley. \u201cN\u00f3s queremos ver se conseguimos acelerar essa transi\u00e7\u00e3o com o ETCC\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagiologia cerebral sugere que a melhor forma de fazer isso seria estimular o c\u00f3rtex motor enquanto o volunt\u00e1rio realiza a tarefa. Mas McKinley e seu time acrescentaram um reviravolta: depois da estimula\u00e7\u00e3o, eles usam o ETCC invertido, para inibir o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal dos volunt\u00e1rios, que est\u00e1 envolvido no pensamento consciente. No dia seguinte \u00e0 estimula\u00e7\u00e3o, os volunt\u00e1rios s\u00e3o trazidos de volta para um novo teste. \u201cOs resultados que estamos alcan\u00e7ando s\u00e3o fant\u00e1sticos\u201d, diz McKinley. As pessoas que receberam a estimula\u00e7\u00e3o durante o teste e [depois] a inibidora, foram 250% melhor em seus novos testes, uma performance muito melhor do que as das pessoas que n\u00e3o receberam nenhum dos dois. Usado dessa forma, parece que o ETCC pode turbinar o tempo que leva para algu\u00e9m passar de novato a especialista em uma tarefa.<br \/>\nNa teoria, esse processo de dois passos pode ser usado para aumentar a velocidade de todos os tipos de treinamento, desde pilotar um avi\u00e3o at\u00e9 mirar um tiro. Mas, por ora, a an\u00e1lise de imagens est\u00e1 no topo da lista de McKinley. \u00c9 um trabalho meticuloso, que requer muita aten\u00e7\u00e3o. Analistas de imagem passam todo seu dia de trabalho estudando imagens de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia, atr\u00e1s de qualquer coisa que possa ser importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outros estudos, a equipe de MacKinley tamb\u00e9m usou o ETCC para dar uma carga extra para a aten\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m pode ajudar os analistas de imagem. Pediu-se que volunt\u00e1rios se encarregassem de uma simula\u00e7\u00e3o rudimentar do monitoramento de tr\u00e1fego a\u00e9reo. Nesse tipo de tarefa, a performance cai com o tempo. \u201c\u00c9 um decr\u00e9scimo bem linear\u201d, diz McKinley. Mas, quando estimulavam o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal dorsolateral dos c\u00e9rebros dos volunt\u00e1rios, uma \u00e1rea que descobriram ser crucial para a aten\u00e7\u00e3o, eles descobriram que n\u00e3o houve qualquer redu\u00e7\u00e3o na performance por todos os quarenta minutos de dura\u00e7\u00e3o do teste. \u201cIsso nunca havia sido mostrado antes\u201d ele diz, entusiasmado. \u201cN\u00f3s nunca t\u00ednhamos sido capazes de encontrar nada que causasse esse tipo de preserva\u00e7\u00e3o da performance\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ETCC n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico instrumento de estimula\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro que McKinley considera interessante. Al\u00e9m de seu trabalho com estimula\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica, outros times est\u00e3o voltados para o ultrassom e at\u00e9 mesmo para a luz laser, bem como para diferentes formas de estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, por exemplo, usando corrente alternada. McKinley est\u00e1 prestes a come\u00e7ar a investigar o ultrassom tamb\u00e9m, e est\u00e1 interessado em como a corrente alternada pode influenciar as ondas cerebrais. Mas, enquanto ele diz que \u00e9 neutro sobre qual tipo de estimula\u00e7\u00e3o pode ser a melhor para o aprimoramento da conex\u00e3o, o ETCC tem algumas vantagens. Pra come\u00e7ar, diferente do ultrassom ou do magnetismo, a eletricidade \u00e9 uma parte natural da comunica\u00e7\u00e3o entre as c\u00e9lulas do c\u00e9rebro, al\u00e9m de ser barata e port\u00e1til. Ele acredita que o ETCC \u00e9 a melhor aposta para um dispositivo de estimula\u00e7\u00e3o cerebral que possa ser usado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/gizmodo.uol.com.br\/video-cerebro-memoria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>&gt;&gt;&gt; SAIBA MAIS: Cientistas conseguiram filmar o processo de forma\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como resultado, McKinley prev\u00ea uma cobertura [quepe, boina etc.] wireless que incorpore sensores de eletroencefalografia (EEG) e eletrodos de ETCC. Essa cobertura dois-em-um monitoraria a atividade cerebral e, quando necess\u00e1rio, forneceria estimula\u00e7\u00e3o direcionada, ampliando a aten\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 usando o equipamento, caso a performance da pessoa pare\u00e7a estar enfraquecendo. A tecnologia b\u00e1sica j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel.<br \/>\nMcKinley e Weisend est\u00e3o trabalhando para aprimor\u00e1-la e refin\u00e1-la. Com a ajuda de especialistas em materiais do Laborat\u00f3rio de Pesquisa da For\u00e7a A\u00e9rea, eles desenvolveram eletrodos baseados em EEG que usam gel, no lugar de uma esponja molhada, o que dizem que a torna mais confort\u00e1vel de se vestir. Agora, eles tamb\u00e9m se beneficiam de um conjunto de cinco mini-eletrodos dentro de cada \u00e2nodo e c\u00e1todo, para espalhar a corrente e reduzir o risco de danos \u00e0 pele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto com as melhorias no aprendizado e na aten\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es normais, McKinley descobriu que o ETCC pode combater o decl\u00ednio no desempenho mental que normalmente vem com a falta de sono. Outros pesquisadores descobriram que, dependendo de onde \u00e9 aplicada a corrente, o ETCC pode tornar uma pessoa mais l\u00f3gica, aumentar sua habilidade matem\u00e1tica, ampliar sua for\u00e7a e velocidade f\u00edsicas, e at\u00e9 mesmo afetar sua habilidade de fazer planos, sua propens\u00e3o a correr riscos e sua capacidade de enganar; parece que o ETCC pode melhorar ou piorar a produ\u00e7\u00e3o de mentiras. Embora muito desse trabalho ainda seja preliminar, todos esses efeitos t\u00eam potencial para serem explorados por qualquer organiza\u00e7\u00e3o militar, ainda que McKinley se esforce para afirmar que o \u201ccontrole da mente dos soldados\u201d n\u00e3o \u00e9 seu objetivo. Os maiores empecilhos para lan\u00e7ar uma cobertura de ETCC a ser usada rotineiramente pelos militares dos EUA (ou por qualquer pessoa) n\u00e3o tem tanto a ver com a tecnologia ou com seus poss\u00edveis efeitos, mas com as perguntas ainda sem respostas sobre a ess\u00eancia do m\u00e9todo.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVamos falar de cr\u00e2nios!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu estou com Mike Weisend em um Max &amp; Erma\u2019s, um restaurante de comida americana a uns cinco minutos, de carro, de seu novo escrit\u00f3rio no Instituto de Pesquisa Wright State. O Instituto fica a cerca de dez minutos da Base da For\u00e7a A\u00e9rea Wright-Patterson. Na mesa tamb\u00e9m est\u00e3o Larry Janning e David McDaniel, da <em>Defense Research Associates<\/em>, uma empresa local que cria tecnologias \u201cpara apoiar os soldados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No carro, no caminho para l\u00e1, Weisend me contou sobre suas primeiras e macabras tentativas de ter uma no\u00e7\u00e3o melhor do que acontece\u00a0 com a eletricidade quando \u00e9 aplicada no cr\u00e2nio. \u201cPrimeiro, eu me uni a uma companhia que pesquisa o dano ac\u00fastico em cabe\u00e7as de cad\u00e1veres. A ideia era que a gente ficasse com as cabe\u00e7as depois. Era um trabalho nojento, desagrad\u00e1vel. Eu n\u00e3o conseguia lidar com ele\u201d. Mas esse tipo de dado estava no topo da lista de desejos dele e de McKinley.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m sabe ainda qual dura\u00e7\u00e3o da estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica ou quantas estimula\u00e7\u00f5es trazem o maior impacto ao desempenho, ou qual n\u00edvel de corrente \u00e9 o ideal. Nem ningu\u00e9m sabe se uma estimula\u00e7\u00e3o pode causar uma mudan\u00e7a permanente. Isso tornaria a cobertura dois-em-um desnecess\u00e1ria, diz McKinley, mas pode ou n\u00e3o ser desej\u00e1vel, dependendo da utiliza\u00e7\u00e3o. Em diversos estudos h\u00e1 pistas de que mesmo uma \u00fanica sess\u00e3o de ETCC pode ter efeitos a longo prazo. Ningu\u00e9m sabe por quanto tempo os efeitos sobre a aten\u00e7\u00e3o persistem ap\u00f3s os quarenta minutos do breve estudo no controle de tr\u00e1fego a\u00e9reo, diz ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra coisa que ningu\u00e9m sabe com certeza \u00e9 pra onde a eletricidade vai quando \u00e9 aplicada a diversas partes do cr\u00e2nio. Certamente, \u00e9 um est\u00edmulo bastante amplo e impreciso, com uma abordagem mais para \u201cescopeta\u201d em vez de um \u201cbisturi\u201d, como Weisend descreve. Mas enquanto h\u00e1 exemplos que indicam para onde os neurocientistas acham que a eletricidade vai no c\u00e9rebro, e precisamente quais partes s\u00e3o afetadas, McKinley diz que isso ainda n\u00e3o \u00e9 bom o bastante. Voc\u00ea n\u00e3o pode colocar eletrodos na cabe\u00e7a de uma pessoa viva para descobrir isso. \u201cEnt\u00e3o o que n\u00f3s queremos\u201d, McKinley me disse, \u201c\u00e9 um cr\u00e2nio fantasma\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, Weisend quer falar com Janning e McDaniel sobre a constru\u00e7\u00e3o desse fantasma, um modelo de uma cabe\u00e7a humana. A ideia \u00e9 usar um cr\u00e2nio de verdade, mas com uma gosma gelatinosa e condutora dentro dela, imitando um c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A princ\u00edpio, ningu\u00e9m tem muita certeza de como arrumar o cr\u00e2nio com sensores de uma forma que possa produzir resultados realistas, especialmente porque Weisend quer que ele seja \u00fatil para pesquisa com v\u00e1rias t\u00e9cnicas de estimula\u00e7\u00e3o. Enquanto comemos hamb\u00farguer de feij\u00e3o preto e tomamos sopa, conversamos sobre m\u00faltiplos receptores e problemas com sinais de pulso. Ent\u00e3o, McDaniel vem com a ideia de inserir, no buraco na base do cr\u00e2nio, uma placa de circuito dobrada como um leque, que se abriria uma vez que estivesse l\u00e1 dentro. Weisend se empolga com a ideia. Ele junta seus punhos, colocando as falanges em contato. \u201cO c\u00e9rebro \u00e9 assim\u201d, diz ele. \u201cVoc\u00ea tem fibras correndo como meus dedos [nessa posi\u00e7\u00e3o]\u201d. Ele decide que a forma de leque seria uma imita\u00e7\u00e3o decente para as fibras. \u201cEu gosto dessa ideia. Eu gosto muito dela!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto McKinley quanto Weisend est\u00e3o interessados na neuroci\u00eancia b\u00e1sica do que, exatamente, o ETCC faz ao c\u00e9rebro, mas tamb\u00e9m na tecnologia \u2013 e na quest\u00e3o da seguran\u00e7a. Essa \u00e9 obviamente uma grande preocupa\u00e7\u00e3o quando voc\u00ea est\u00e1 falando sobre bombardear o c\u00e9rebro com eletricidade, mesmo se a corrente for baixa. As descobertas positivas com o ETCC e, sendo o equipamento relativamente barato, fizeram com que o ETCC feito em casa se tornasse um t\u00f3pico de discuss\u00e3o popular na internet. Voc\u00ea pode comprar tudo que precisa por menos de duzentos d\u00f3lares e, julgando pelos f\u00f3runs online, v\u00e1rias pessoas est\u00e3o fazendo isso. Mas Weisend tem algumas grandes preocupa\u00e7\u00f5es sobre isso. Pra come\u00e7ar, os pr\u00f3prios eletrodos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEst\u00e1 vendo isso?\u201d ele levanta a manga do bra\u00e7o direito para mostrar uma pequena cicatriz na parte de dentro do antebra\u00e7o. \u201cEu testei todos os tipos de eletrodos em mim mesmo antes de os usarmos em pessoas comuns\u201d, ele diz. \u201cN\u00e3o gosto de fazer a outras pessoas nada que eu n\u00e3o fa\u00e7a a mim mesmo\u201d. Depois de testar um eletrodo particularmente novo, um assistente de pesquisa limpou seu bra\u00e7o e um peda\u00e7o de pele do tamanho de uma moeda saiu. \u201cTinha consist\u00eancia de catarro\u201d, diz Weisend. \u201cEu conseguia ver o m\u00fasculo embaixo\u201d. O problema era o formato: o eletrodo era quadrado, e a corrente se concentrou nos cantos. Esse foi um dos diversos resultados, em sua maioria menos desagrad\u00e1veis, que ajudaram ele e McKinley a desenvolver o atual conjunto de cinco eletrodos que espalham a corrente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/gizmodo.uol.com.br\/disparar-ultrassom-no-cerebro-pode-melhorar-as-capacidades-sensoriais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>&gt;&gt;&gt; ENTENDA: Como ondas de ultrassom podem melhorar as capacidades sensoriais<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kits para ETCC em embalagens bonitas, que visam ao p\u00fablico geral e n\u00e3o os cientistas, j\u00e1 est\u00e3o \u00e0 venda para o consumidor final. Mas Weisend e McKinley (e todos os outros pesquisadores de ETCC com quem eu falei) acham que \u00e9 muito cedo para dispositivos comerciais. Na verdade, todos eles pareceram preocupados. Se alguma coisa der errado e algu\u00e9m se machucar, talvez com um eletrodo imperfeito ou por usar o kit por \u201ctempo demais\u201d \u2013 uma dura\u00e7\u00e3o que ainda precisa ser definida \u2013 n\u00e3o seria ruim s\u00f3 para a pessoa: o conceito do ETCC seria estigmatizado novamente, diz McKinley.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 agora, parece que n\u00e3o h\u00e1 efeitos prejudiciais causados pelo ETCC, pelo menos, n\u00e3o nos n\u00edveis e dura\u00e7\u00f5es usados rotineiramente pelo laborat\u00f3rio. Weisend acredita que n\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis, e admite que podem existir efeitos colaterais no ETCC que ningu\u00e9m conhece ainda. Outros s\u00e3o mais otimistas. Felipe Fregni, diretor do Laborat\u00f3rio de Neuromodela\u00e7\u00e3o do Hospital de Reabilita\u00e7\u00e3o Spaulding, em Boston, Massachusetts, diz que n\u00e3o h\u00e1 motivo para achar que mesmo o uso a longo prazo possa causar problemas, se forem os baixos n\u00edveis e curtas dura\u00e7\u00f5es tipicamente utilizados nos estudos em laborat\u00f3rios. \u201cSendo um cl\u00ednico, uma coisa que aprendemos na faculdade de medicina \u00e9 que os tratamentos que funcionam bem t\u00eam grandes efeitos colaterais. Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea uma coisa com nenhum efeito colateral e pensa \u2018n\u00f3s estamos deixando de ver alguma coisa, ou n\u00e3o?\u2019. O ETCC est\u00e1 apenas ampliando o que o seu sistema j\u00e1 est\u00e1 fazendo. Baseado nos mecanismos, eu me sinto confiante de que a t\u00e9cnica \u00e9 bastante segura\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta de efeitos colaterais, algo de que a maioria das drogas n\u00e3o pode se gabar, \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais o ETCC \u00e9 t\u00e3o excitante como instrumento cl\u00ednico, diz Vince Clark. Em muitos casos, um rem\u00e9dio ser\u00e1 mais adequado. Mas o ETCC pode aliviar a dor sem deixar o usu\u00e1rio viciado. Ele pode afetar o c\u00e9rebro sem danificar o f\u00edgado. Como n\u00e3o parecem existir efeitos colaterais, o ETCC \u00e9 pelo menos t\u00e3o seguro quanto as drogas que s\u00e3o, atualmente, aprovadas para o uso em crian\u00e7as. 11% das crian\u00e7as nos EUA foram diagnosticadas com transtorno do d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o com hiperatividade, e muitas tomam estimulantes como a Ritalina. Ningu\u00e9m tem certeza de que n\u00e3o existem efeitos a longo prazo no uso do ETCC, mas segundo Clark o mesmo pode ser dito sobre a Ritalina.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27478\" src=\"http:\/\/200.98.71.50\/blogmed\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/estimulacaocerebro-e1471516465783.jpg\" alt=\"estimulacaocerebro\" width=\"560\" height=\"254\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o ETCC n\u00e3o \u00e9 aprovado pela <em>Food and Drug Administration<\/em> dos EUA para uso m\u00e9dico, relatos aned\u00f3ticos levam Clark a acreditar que seu uso sem indica\u00e7\u00e3o formal (quando os m\u00e9dicos recomendam algo que acreditam que vai ajudar o paciente, mas n\u00e3o \u00e9 algo reconhecido como um tratamento) est\u00e1 crescendo, particularmente para dor cr\u00f4nica e depress\u00e3o. Hospitais est\u00e3o come\u00e7ando a usar a t\u00e9cnica clinicamente. Em Boston, Fregni e seu colega Le\u00f3n Morales-Quezada come\u00e7aram recentemente a usar o ETCC durante a reabilita\u00e7\u00e3o de pacientes jovens com danos cerebrais. Com um menino de tr\u00eas anos que sofreu graves danos cerebrais ao quase se afogar em uma piscina, eles alcan\u00e7aram resultados \u201cfant\u00e1sticos\u201d, diz Morales-Quezada. Ap\u00f3s o tratamento, o menino ganhou um controle muito melhor de seus movimentos e foi capaz de falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um outro \u201crisco\u201d: que o dispositivo n\u00e3o ajude qualquer um, e a\u00ed as pessoas v\u00e3o dizer que o ETCC n\u00e3o funciona. Realmente, as pessoas n\u00e3o respondem igualmente \u00e0 estimula\u00e7\u00e3o, e ainda n\u00e3o se sabe o motivo disso. Essa \u00e9 apenas uma das \u00e1reas que precisa de mais pesquisa, e pesquisa exige dinheiro.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Clark, seus estudos n\u00e3o s\u00e3o fundamentalmente sobre ajudar a ensinar um soldado a perceber uma amea\u00e7a e lidar com ela (o que, no mundo real, pode envolver identificar e matar um inimigo), mas sobre investigar como o c\u00e9rebro detecta amea\u00e7as. \u201cMuitas pessoas que resenharam minha pesquisa dizem que \u00e9 um bom trabalho, mas tem que ser sobre os militares? Isso as deixa infelizes. Muitos intelectuais ficam desconfort\u00e1veis com a guerra. Eu fico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, h\u00e1 algo que ainda o incomoda. Em 2003, Joseph Wilson, ex-diplomata dos EUA, publicou um artigo no New York Times argumentando que o presidente George W. Bush tinha enganado o p\u00fablico ao afirmar que o Iraque estava comprando ur\u00e2nio na \u00c1frica, [e isso foi] parte do furor maior sobre a decis\u00e3o de ir \u00e0 guerra no Iraque. Uma semana depois foi revelado que sua esposa, Valerie Plame Wilson \u2013 uma amiga de Clark \u2013 era uma agente da CIA. A coisa toda tinha sido uma retalia\u00e7\u00e3o por seu artigo, seu esposo alegou. \u201cEu conheci Valerie por dez anos antes disso, sem saber que ela era agente da CIA\u201d, diz Clark. \u201cEla era uma patriota incr\u00edvel, e eu fiquei realmente triste ao perceber que, porque as pessoas estavam bravas com seu marido, ela tenha perdido sua carreira e sua capacidade de fazer aquele trabalho\u2026 ent\u00e3o ali eram meus amigos, passando por aquilo. Aqui estou eu, sendo pressionado para usar essa tecnologia para o desenvolvimento de armas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desenvolvimento de armas? Por volta da \u00e9poca da doa\u00e7\u00e3o do DARPA, o foco da Rede de Estudos da Mente come\u00e7ou a se voltar mais e mais na dire\u00e7\u00e3o do desenvolvimento de ferramentas que os militares pudessem usar, diz Clark. \u201cEu n\u00e3o posso dizer o que foi discutido, mas posso mencionar algumas possibilidades\u201d, ele diz. \u201cUm dispositivo que deixe as tropas inimigas inconscientes, ou as deixe confusas ou tristes demais para lutar, pode ser transformado em uma arma. Podem ser conseguidas armas que alterem pensamentos e cren\u00e7as, ou que afetem diretamente a capacidade de tomar decis\u00f5es ou que \u2018recompensem\u2019 caminhos no c\u00e9rebro para alterar seu comportamento, ou que mantenham algu\u00e9m consciente enquanto est\u00e1 sendo torturado\u201d. Ele tamb\u00e9m ouviu conversas sobre o uso de ETCC para aprimorar o treinamento de atiradores, o que ele n\u00e3o aprovava. \u201cEu tinha meus princ\u00edpios e objetivos, eles tinham os deles, e est\u00e1vamos em conflito direto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2009, foi encontrado um erro nos pagamentos b\u00f4nus dos assistentes de pesquisa do projeto DARPA. Clark diz que n\u00e3o era nada s\u00e9rio, mas como havia seu hist\u00f3rico de disputas com colegas sobre o direcionamento do instituto, isso se tornou um grande problema. Logo depois, ele perdeu sua posi\u00e7\u00e3o como principal pesquisador no trabalho da DARPA.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s apertos de m\u00e3o entusiasmados e promessas de mais discuss\u00f5es com a equipe da <em>Defense Research Associates<\/em>, Weisend boceja e pede desculpas. Ele est\u00e1 em Ohio h\u00e1 apenas seis semanas. Tem sido um per\u00edodo muito ocupado em se estabelecer, tentar conhecer novos colegas e encontrar poss\u00edveis colaboradores. Al\u00e9m disso, ele e sua esposa finalmente compraram uma TV noite passada, ele acrescenta. Ele n\u00e3o consegue resistir a ficar acordado assistindo antigos epis\u00f3dios de Jornada nas Estrelas. De volta a seu escrit\u00f3rio, n\u00f3s sentamos e falamos sobre ETCC, seus projetos atuais, a Rede de Estudos da Mente, Vince Clark, o Departamento de Defesa e a \u201ccor do dinheiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primo de Weisend, David, estava nas For\u00e7as de Opera\u00e7\u00f5es Especiais dos EUA. Sua irm\u00e3, Joan, teve uma carreira como auxiliar m\u00e9dica da marinha americana. Ela completou muitas voltas ao mundo, incluindo Iraque e \u00c1frica. Um inc\u00eandio a bordo de um barco em uma de suas viagens resultou em m\u00faltiplas opera\u00e7\u00f5es em seu pulso, pesco\u00e7o e ombro. Entre 1997 e 2004, Weisend tamb\u00e9m trabalhou no<em>New Mexico Veterans Affairs Hospital<\/em>, cuidando de um centro de magnetoencefalografia (MEG), que examinava detalhadamente os c\u00e9rebros dos pacientes. Ele lembra de um paciente em particular, uma mulher que recebeu um ferimento na cabe\u00e7a ap\u00f3s cair de um ve\u00edculo em movimento durante a primeira Guerra do Golfo. Como resultado, ela tinha epilepsia. O esquadrinhamento de seu c\u00e9rebro usando MEG permitiu que a equipe m\u00e9dica fizesse a cirurgia que interrompeu as convuls\u00f5es com o m\u00ednimo de dano poss\u00edvel ao tecido saud\u00e1vel. \u201cEu vi pessoalmente os efeitos [da a\u00e7\u00e3o militar] \u00e0 sa\u00fade dos soldados no hospital, e na minha irm\u00e3, e no meu primo\u201d, ele diz. \u201cQualquer coisa que eu possa fazer para ajudar esses caras, eu vou fazer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/gizmodo.uol.com.br\/agencia-dos-eua-vai-investir-us-70-milhoes-para-desenvolver-chips-para-serem-implantados-no-cerebro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>&gt;&gt;&gt; MAIS: Ag\u00eancia dos EUA vai investir 70% no desenvolvimento de chips cerebrais<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Clark perdeu seu cargo, Weisend foi convidado a tomar a lideran\u00e7a, e foi ele que desenvolveu e supervisionou a segunda fase da pesquisa. O financiamento do DoD \u00e9 uma grande parte de sua renda no laborat\u00f3rio do <em>Wright State Research Institute<\/em>, diz Weisend, por projetos \u201cdivertidos, excitantes\u201d sobre os quais ele n\u00e3o pode falar. Ele sabe muito bem que nem todo mundo est\u00e1 confort\u00e1vel com os ganhos ligados \u00e0s for\u00e7as armadas. \u201cH\u00e1 pessoas, especialmente nos departamentos universit\u00e1rios, que se preocupam com a \u201ccor do dinheiro\u201d; dinheiro da Defesa, no lugar de dinheiro da NIH [Insitutos Nacionais de Sa\u00fade dos EUA] para ci\u00eancia pura\u201d, ele diz. A opini\u00e3o dele \u00e9 que voc\u00ea nunca sabe como a pesquisa b\u00e1sica vai ser usada, e se for usada para o mal, \u00e9 a ag\u00eancia que faz o mal que deve ser responsabilizada, n\u00e3o o pesquisador que trabalhou na ci\u00eancia que o originou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sobre a pesquisa que Clark ouviu falar, sobre o uso de ETCC no treinamento de atiradores? Isso pertence \u00e0 categoria de pesquisa que aparece \u201cna imprensa popular\u201d, mas n\u00e3o \u201cno laborat\u00f3rio\u201d, Weisend diz, embora acrescente que n\u00e3o \u00e9 contra isso, na teoria. \u201cA conclus\u00e3o \u00e9 que Vince e eu vemos o mundo de formas diferentes, a respeito do trabalho da DARPA e as dire\u00e7\u00f5es que ele tomou\u201d, ele diz. \u201cSe Vince conversou sobre a transforma\u00e7\u00e3o dos nossos resultados em armas, eu n\u00e3o estou a par dessas conversas. Eles podem ser transformados em armas? Sem d\u00favidas. Mas, novamente, uma caneta esferogr\u00e1fica tamb\u00e9m pode. N\u00f3s sempre nos focamos na melhoria do desempenho, medida por meio da redu\u00e7\u00e3o de erros e de incertezas. N\u00f3s nunca fizemos experi\u00eancias com armas na MRN\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Weisend me diz que, por muito tempo, foi dif\u00edcil conseguir volunt\u00e1rios militares para os estudos financiados pela DARPA. Ao contr\u00e1rio dos civis, eles n\u00e3o podem ser pagos para fazer parte. Ent\u00e3o, ele teve a ideia de encomendar uma moeda especial. Ele me mostra uma. \u00c9 pesada e impressionante, do tamanho de uma medalha. Em um lado, h\u00e1 o exterior de um c\u00e9rebro humano em alto relevo, em outro os emblemas coloridos tanto da 711\u00aa Ala de Performance Humana quanto do Laborat\u00f3rio de Pesquisa da For\u00e7a A\u00e9rea, com \u201c<em>The Mind Research Network<\/em>\u201d gravado abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moedas como essa s\u00e3o muito populares entre os militares, diz Weisend. Ele me mostra sua cole\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma de um amigo que trabalha no Pent\u00e1gono, outra de seu primo, da \u00e9poca em que estava nos Green Hornets, o 20\u00ba Esquadr\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais da For\u00e7a A\u00e9rea. \u201cN\u00f3s n\u00e3o consegu\u00edamos descobrir como conseguir que os militares chegassem\u201d, ele diz, \u201cent\u00e3o criamos essas [moedas]. E eles sa\u00edram de suas tocas para consegui-las\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto os estudos da MRN envolvem uma mistura de volunt\u00e1rios estudantes e militares, Andy McKinley recruta seus volunt\u00e1rios da Base da For\u00e7a A\u00e9rea Wright-Patterson. McKinley ressalta que, no momento, o ETCC ainda \u00e9 experimental. Ainda n\u00e3o \u00e9 um treinamento de rotina das For\u00e7as Armadas dos EUA. Por\u00e9m, alguns pesquisadores est\u00e3o preocupados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernhard Sehm, neurologista cognitivo do Instituto Max-Planck da Cogni\u00e7\u00e3o Humana e Ci\u00eancias do C\u00e9rebro em Leipzig, na Alemanha, tem uma lista de preocupa\u00e7\u00f5es sobre o ETCC e os militares. Pra come\u00e7ar, ele diz que est\u00e1 longe de se convencer que os resultados de laborat\u00f3rio poderiam ser passados para o mundo real, com exig\u00eancias complexas como o combate. Al\u00e9m disso, \u201calguns pesquisadores t\u00eam discutido como aprimoramento de uma habilidade espec\u00edfica pode resultar na deteriora\u00e7\u00e3o de outra\u201d, ele diz. \u201cO uso de estimula\u00e7\u00e3o n\u00e3o invasiva no c\u00e9rebro de soldados representa um risco tanto para a pessoa que recebe quanto para outras pessoas que podem se machucar com suas a\u00e7\u00f5es\u201d. Sehm tamb\u00e9m est\u00e1 preocupado com a autonomia dos soldados. \u201cEm geral, os militares n\u00e3o podem decidir voluntariamente se receber\u00e3o um \u2018tratamento\u2019 ou n\u00e3o\u201d, ele diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme o DoD continua a financiar a pesquisa com ETCC, alguns pesquisadores do campo decidiram tomar uma posi\u00e7\u00e3o firme contra o dinheiro ligado \u00e0s For\u00e7as Armadas. Chris Chambers, um psic\u00f3logo na Universidade de Cardiff, no Pa\u00eds de Gales, conduz pesquisas sobre a estimula\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica do c\u00e9rebro. Quando representantes da QinetiQ, uma empresa brit\u00e2nica de tecnologia de defesa, contatou-o e disse que fundos poderiam estar dispon\u00edveis para colaboradores associados, ele diz que rejeitou a oferta por uma quest\u00e3o de princ\u00edpios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa n\u00e3o \u00e9, necessariamente, uma decis\u00e3o f\u00e1cil. Companhias farmac\u00eauticas n\u00e3o est\u00e3o interessadas em pagar pela pesquisa, porque n\u00e3o s\u00f3 o ETCC n\u00e3o \u00e9 uma droga como tamb\u00e9m, em alguns casos, estaria em competi\u00e7\u00e3o direta com uma droga, e pode at\u00e9 mesmo ter grandes vantagens. \u201c[O ETCC] n\u00e3o circula pelo corpo, ent\u00e3o ele n\u00e3o afeta outros \u00f3rg\u00e3os que a maior parte das drogas pode prejudicar\u201d, diz Clark. \u201cEle n\u00e3o \u00e9 viciante. Se ocorrer qualquer problema, voc\u00ea pode deslig\u00e1-lo em segundos. \u00c9 barato, tamb\u00e9m\u201d. Esses benef\u00edcios, infelizmente, restringem as op\u00e7\u00f5es dos pesquisadores aos \u00f3rg\u00e3os de financiamento p\u00fablico (que n\u00e3o est\u00e3o jogando dinheiro no ETCC), companhias privadas ligadas \u00e0 defesa, ou as For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No passado, o financiamento do DoD gerou inova\u00e7\u00f5es que tiveram grande impacto na vida civil \u2013 pense nos sat\u00e9lites de GPS ou at\u00e9 nos fones de ouvido que cancelam os sons externos. Andy McKinley espera que uma forma efetiva e segura de ETCC se junte a essa lista. Mesmo que o DoD n\u00e3o tenha especialistas internos o suficiente para fazer a pesquisa, ele tem o dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clark ainda \u00e9 supervisor de pesquisa no MRN, mas trabalha a maior parte do tempo na universidade. Atualmente, ele est\u00e1 juntando \u201cquaisquer bocados de dinheiro que eu consiga encontrar\u201d para seguir com pesquisas m\u00e9dicas: para investigar se o ETCC pode ou n\u00e3o tratar o v\u00edcio de alco\u00f3latras, reduzir as alucina\u00e7\u00f5es de pessoas com esquizofrenia e acalmar o comportamento impulsivo ligado \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o pr\u00e9\u2013natal ao \u00e1lcool. Mesmo que essa pesquisa seja relativamente barata, financi\u00e1-la ainda \u00e9 um problema. Dado o r\u00e1pido crescimento das pesquisas com ETCC publicadas em peri\u00f3dicos acad\u00eamicos, Clark espera que os Institutos Nacionais de Sa\u00fade dos EUA comecem em breve a levar a s\u00e9rio as pesquisas com ETCC e a pagar por estudos controlados e em larga escala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre as pistas promissoras est\u00e3o outras descobertas de que o ETCC tamb\u00e9m parece funcionar bem com tipos de dor que n\u00e3o respondem bem aos analg\u00e9sicos convencionais, como a dor cr\u00f4nica e a dor vinda do dano em nervos. Nesses casos, o alvo normalmente \u00e9 o C\u00f3rtex motor, e a ideia \u00e9 reduzir os sinais de dor. O que me traz de volta para Ryan, uma das grandes motiva\u00e7\u00f5es para a pesquisa de Clark. Clark chegou a testar [o ETCC] em seu filho? Quando Ryan ficou doente pela primeira vez, \u201cnenhum dos m\u00e9dicos tinha ouvido falar do ETCC\u201d, ele me disse, \u201ce eu decidi n\u00e3o tentar sem ajuda m\u00e9dica\u201d. Ele tamb\u00e9m cruzou com uma abordagem de baixa tecnologia: uma \u201c\u00f3rtese\u201d similar aos protetores bucais que as pessoas usam contra bruxismo. Para a surpresa de Clark, isso aliviou a dor de Ryan e facilitou seus movimentos. Mas Clark diz que ficaria feliz se Ryan testasse o ETCC. Se a prote\u00e7\u00e3o parar de funcionar e ele puder encontrar um m\u00e9dico que trabalhe com a t\u00e9cnica, \u201ceu n\u00e3o acho que haveria qualquer problema\u201d, ele diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clark fica excitado com o potencial do ETCC para ajudar pessoas doentes, como seu filho, e tamb\u00e9m pessoas saud\u00e1veis. Mas ele diz que agora est\u00e1 clara sua posi\u00e7\u00e3o sobre quais financiamentos aceitar e quais pesquisas fazer. \u201cEu quero ver o ETCC sendo usado para ajudar\u201d, ele diz, \u201cn\u00e3o para machucar\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1053811913009385\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Artigo sobre aprimoramento neural com coautoria de Vince Clark e publicado no peri\u00f3dico NeuroImage<\/a>;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/tedxtalks.ted.com\/video\/Rewiring-your-brain-Michael-Wei\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Recabeando seu c\u00e9rebro: uma palestra de Michael Weisend no TEDxDayton<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A aplica\u00e7\u00e3o de correntes el\u00e9tricas leves no c\u00e9rebro pode aliviar dores, auxiliar os mecanismos de mem\u00f3ria e melhorar a aten\u00e7\u00e3o \u2013 e os militares dos EUA est\u00e3o muito interessados nisso. No ver\u00e3o de 2010, Ryan Clark torceu o tornozelo durante uma aula de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. 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