{"id":62930,"date":"2023-02-11T04:28:11","date_gmt":"2023-02-11T04:28:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogmed.antonini.com.br\/?p=62930"},"modified":"2023-02-11T04:28:11","modified_gmt":"2023-02-11T04:28:11","slug":"sporothrix-brasiliensis-o-fungo-descoberto-no-brasil-que-se-espalha-e-ja-preocupa-cientistas-bbc-news-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=62930","title":{"rendered":"Sporothrix brasiliensis: O fungo descoberto no Brasil que se espalha e j\u00e1 preocupa cientistas &#8211; BBC News Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 meados dos anos 1990, o fungo Sporothrix brasiliensis era um ilustre desconhecido. De uma hora para outra, por\u00e9m, ele se tornou um problema de sa\u00fade p\u00fablica.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-62936\" src=\"https:\/\/blogmed.antonini.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/94429400-a627-11ed-b251-afa42ec69b26.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"417\"\/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os primeiros casos de infec\u00e7\u00e3o por esse pat\u00f3geno come\u00e7aram a chamar a aten\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, onde os pesquisadores observaram que a transmiss\u00e3o acontecia principalmente a partir de gatos de rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns anos depois, a circula\u00e7\u00e3o do micro-organismo foi detectada na Argentina, Paraguai, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia e Panam\u00e1, com casos pontuais registrados tamb\u00e9m na Inglaterra e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que explica esse espalhamento? Por tr\u00e1s dessa epidemia pouco conhecida, h\u00e1 um exemplo de como o desequil\u00edbrio no meio ambiente pode levar a consequ\u00eancias surpreendentes e inesperadas.<br \/>De inofensivo a amea\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fungos do g\u00eanero Sporothrix s\u00e3o conhecidos desde 1898. Eles aparecem principalmente no solo e em algumas plantas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como seus primos-irm\u00e3os que pertencem ao mesmo reino, essas esp\u00e9cies s\u00e3o fundamentais para decompor a mat\u00e9ria org\u00e2nica na natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em alguns casos raros, por\u00e9m, esses micro-organismos podem causar doen\u00e7as em seres humanos, conhecidas genericamente como esporotricose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Sporothrix brasiliensis, por exemplo, consegue se infiltrar nas camadas superficiais da pele. O pat\u00f3geno coloniza esse tecido subcut\u00e2neo e provoca feridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fungo tamb\u00e9m pode invadir o sistema linf\u00e1tico e afetar os olhos, o nariz e at\u00e9 os pulm\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como mencionado anteriormente, esses casos eram raros. Mas a frequ\u00eancia deles passou a chamar a aten\u00e7\u00e3o no final dos anos 1990 em algumas localidades do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 1998 e 2001, pesquisadores da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (FioCruz) diagnosticaram 178 casos de esporotricose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDos 178 pacientes, 156 tinham algum contato em casa ou no trabalho com gatos que tamb\u00e9m estavam com essa enfermidade, e 97 levaram alguma mordida ou arranh\u00e3o desses animais\u201d, descreve o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa foi uma das primeiras pistas a chamar a aten\u00e7\u00e3o dos especialistas: por algum motivo, os n\u00fameros da doen\u00e7a estavam crescendo aos poucos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSegundo as \u00faltimas estat\u00edsticas, j\u00e1 s\u00e3o mais de 12 mil casos em seres humanos desde ent\u00e3o\u201d, atualiza o m\u00e9dico Flavio Telles, da Sociedade Brasileira de Infectologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE isso sem contar os incont\u00e1veis registros em gatos e cachorros\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-62935\" src=\"https:\/\/blogmed.antonini.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/c1aff3f0-a628-11ed-8f65-71bfa0525ce3.jpeg\" alt=\"\" width=\"716\" height=\"714\"\/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o passar do tempo, os pesquisadores puderam entender melhor o ciclo da infec\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas entre as pessoas, mas tamb\u00e9m em animais que vivem pr\u00f3ximos de nossas casas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPor algum motivo, o fungo se adaptou aos gatos. Neles, o pat\u00f3geno causa uma doen\u00e7a disseminada, que provoca ferimentos no rosto e nas patas\u201d, descreve Telles, que tamb\u00e9m \u00e9 professor da Universidade Federal do Paran\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE um gato infectado transmite para outros, al\u00e9m de passar para cachorros e seres humanos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIsso porque faz parte da biologia dos felinos as disputas f\u00edsicas na busca por territ\u00f3rios, alimentos e acasalamentos, em que um animal morde e arranha o outro\u201d, complementa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que fique claro: os gatos n\u00e3o s\u00e3o culpados pela esporotricose. Eles s\u00e3o t\u00e3o v\u00edtimas quanto os c\u00e3es e as pessoas \u2014 e a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas para controlar a dissemina\u00e7\u00e3o do fungo permitiu o espalhamento, refor\u00e7am as fontes ouvidas pela BBC News Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas por que essa situa\u00e7\u00e3o se tornou um problema a partir do Rio de Janeiro durante os \u00faltimos anos?<br \/>Desequil\u00edbrios ambientais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O microbiologista Marcio Louren\u00e7o Rodrigues, da FioCruz Paran\u00e1, esclarece que a ascens\u00e3o do Sporothrix brasiliensis ainda \u00e9 objeto de estudos e especula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPor que ele j\u00e1 estava ali no solo e, de repente, virou uma emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica?\u201d, questiona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cH\u00e1 uma associa\u00e7\u00e3o direta entre esse fato e a ocupa\u00e7\u00e3o do solo, o desmatamento e a constru\u00e7\u00e3o de moradias. Ou seja, voc\u00ea passa a ter uma desorganiza\u00e7\u00e3o de ecossistemas que antes estavam em equil\u00edbrio e isso exp\u00f5e animais e seres humanos a novos pat\u00f3genos\u201d, completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que o fungo chegou nos gatos silvestres e de rua, o \u201cpulo\u201d para os seres humanos foi relativamente f\u00e1cil. Afinal, esses felinos s\u00e3o extremamente comuns em muitos bairros brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o raramente, as crian\u00e7as brincam com eles e os adultos veem com bons olhos t\u00ea-los por perto, como uma maneira de controlar infesta\u00e7\u00f5es de ratos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, todo o contexto de desequil\u00edbrio ambiental somado \u00e0 proximidade com os animais facilitou o contato com o fungo, que passou a causar a doen\u00e7a em milhares de pessoas nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora essas observa\u00e7\u00f5es ajudem a explicar como o surto provocado pelo Sporothrix brasiliensis surgiu, elas n\u00e3o permitem entender como o problema se espalhou para outros lugares al\u00e9m do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Argentina, por exemplo, foram detectados 0,16 novos casos por m\u00eas de esporotricose felina em 2011. J\u00e1 em 2019, essa taxa estava em 0,75 casos \u2014 um crescimento de mais de quatro vezes em menos de uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs gatos transitam por um territ\u00f3rio e podem atravessar fronteiras secas de Estados ou at\u00e9 de pa\u00edses\u201d, diz Telles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAl\u00e9m disso, podem ser transportados pelas pessoas que se mudam de bairro ou cidade\u201d, complementa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para o espalhamento do Sporothrix brasiliensis por v\u00e1rios pa\u00edses das Am\u00e9ricas est\u00e1 nos ratos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns estudos mostram que esses roedores tamb\u00e9m podem carregar o fungo \u2014 e ir de um lugar a outro durante o transporte de alimentos por caminh\u00f5es ou navios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num novo local, os ratos s\u00e3o ca\u00e7ados pelos gatos que moram ali. Os felinos, por sua vez, acabam se infectando e d\u00e3o in\u00edcio a um novo ciclo de esporotricose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para completar, como esses animais carregam o fungo nas garras, na saliva e no sangue, podem transmiti-lo a seres humanos por meio de mordidas ou arranh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que fazer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em compara\u00e7\u00e3o com outros fungos do mesmo g\u00eanero, o Sporothrix brasiliensis \u00e9 mais virulento (ou seja, se espalha com maior facilidade) e pode causar quadros infecciosos mais severos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tratamento tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dos mais f\u00e1ceis: nem sempre os rem\u00e9dios antif\u00fangicos dispon\u00edveis funcionam de primeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terapia medicamentosa costuma durar, em m\u00e9dia, 187 dias, calcula um estudo recente da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chave, garantem outros artigos publicados nos \u00faltimos anos, est\u00e1 em fazer o diagn\u00f3stico correto e iniciar o tratamento o quanto antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso at\u00e9 evita a cria\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia aos f\u00e1rmacos \u2014 esse, ali\u00e1s, tem sido um problema frequente nos \u00faltimos anos com outras esp\u00e9cies de fungos, que est\u00e3o se tornando cada vez mais dif\u00edceis de combater.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Rodrigues, casos como o do Sporothrix brasiliensis revelam como os desequil\u00edbrios no meio ambiente causados pela a\u00e7\u00e3o humana t\u00eam consequ\u00eancias imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cH\u00e1 15 anos, a esporotricose n\u00e3o era um problema. A altera\u00e7\u00e3o de ecossistemas propicia poss\u00edveis exposi\u00e7\u00f5es a pat\u00f3genos que, antes, n\u00e3o aconteciam\u201d, diz<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE isso gera crises de sa\u00fade p\u00fablica cada vez mais dif\u00edceis de enfrentar\u201d, complementa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Telles entende que o epis\u00f3dio refor\u00e7a a import\u00e2ncia de encarar a sa\u00fade humana, dos animais e do pr\u00f3prio planeta como uma coisa s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFalamos de uma quest\u00e3o complexa, que depende de uma abordagem global. Precisaremos de m\u00e9dicos, veterin\u00e1rios, epidemiologistas, microbiologistas, sanitaristas, ambientalistas e uma s\u00e9rie de outros profissionais para lidar com essa e outras crises parecidas\u201d, conclui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mat\u00e9ria <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cx897pr3dr8o\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">aqui<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 meados dos anos 1990, o fungo Sporothrix brasiliensis era um ilustre desconhecido. 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