{"id":9017,"date":"2015-08-30T18:44:42","date_gmt":"2015-08-30T18:44:42","guid":{"rendered":"http:\/\/192.168.1.3\/arquivo\/?p=9017"},"modified":"2021-03-31T21:31:21","modified_gmt":"2021-03-31T21:31:21","slug":"espectros-de-alexandria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.ddns.net\/?p=9017","title":{"rendered":"Espectros de Alexandria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Aparentemente existe uma cl\u00e1usula contratual t\u00e1cita, nunca colocada diretamente no papel mas eternamente presente, feito um espectro inquieto, que obriga todo santo document\u00e1rio sobre hist\u00f3ria da ci\u00eancia a prantear a perda da biblioteca de Alexandria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repare: o cl\u00e1ssico &#8220;Cosmos&#8221;, s\u00e9rie apresentada pelo saudoso astr\u00f4nomo americano Carl Sagan (1934-1996) nos anos 1980, chora a destrui\u00e7\u00e3o do lugar. No ano passado, um disc\u00edpulo e conterr\u00e2neo de Sagan, o astrof\u00edsico Neil deGrasse Tyson, apresentou uma nova vers\u00e3o de &#8220;Cosmos&#8221; na qual ele teve o prazer de passear pelos corredores (digitalmente ressuscitados) daquele templo do saber do Egito ptolomaico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em geral, as men\u00e7\u00f5es \u00e0 biblioteca costumam vir acompanhadas de condena\u00e7\u00f5es indignadas do fanatismo religioso que teria levado ao inc\u00eandio da institui\u00e7\u00e3o, logo depois que o cristianismo foi declarado a religi\u00e3o oficial do Imp\u00e9rio Romano no fim do s\u00e9culo 4\u00ba d.C. A hist\u00f3ria, de fato, \u00e9 um exemplo emblem\u00e1tico das amarras impostas pelo obscurantismo \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o intelectual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou melhor, seria, se n\u00e3o fosse t\u00e3o d\u00fabia. A verdade \u00e9 que ningu\u00e9m tem certeza de quando e como a biblioteca foi destru\u00edda e nenhuma fonte antiga atribui diretamente a queima \u00e0 ascens\u00e3o da Igreja crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 certeza absoluta sobre as origens da institui\u00e7\u00e3o, embora suas atividades provavelmente tenham come\u00e7ado algum tempo depois do ano 300 a.C. Criada pelos Ptolomeus, nobres de origem maced\u00f4nica que se autoproclamaram fara\u00f3s ap\u00f3s a morte de Alexandre, o Grande, a biblioteca ganhou fama por promover uma empolgada ca\u00e7a a manuscritos valiosos Mediterr\u00e2neo afora h\u00e1 quem diga que centenas de milhares de livros tenham chegado a ser armazenados nela em seu auge.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que relatos antigos sobre a perda do acervo monumental falam de um primeiro grande inc\u00eandio j\u00e1 na \u00e9poca de J\u00falio C\u00e9sar (nos anos 40 a.C. antes de existirem crist\u00e3os, l\u00f3gico). \u00c9 o que diz, por exemplo, o grego Plutarco, do s\u00e9culo 1\u00ba d.C., em sua biografia de C\u00e9sar, segundo a qual uma batalha teria levado a biblioteca a pegar fogo acidentalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns autores posteriores a essa data falam da Grande Biblioteca como se ela ainda estivesse ativa, mas uma nova guerra quase 300 anos mais tarde, desta vez entre o imperador romano Aureliano (que reinou entre 270 e 275 d.C.) e Zen\u00f3bia, rainha de Palmira, na S\u00edria, teria causado muitos danos \u00e0 \u00e1rea onde ficava a biblioteca, talvez acabando de vez com os vener\u00e1veis rolos de papiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel, embora n\u00e3o seja certo, que uma pequena parte dessa riqueza tenha ido parar no Serapeum, um templo pag\u00e3o de Alexandria. Junto com os outros templos n\u00e3o crist\u00e3os, o Serapeum foi destru\u00eddo por ordem do bispo Te\u00f3filo em 391. Nenhum texto da \u00e9poca, por\u00e9m, fala em livros queimados junto com os apetrechos pag\u00e3os. Pelo visto, em vez de ser obliterada num ato de f\u00faria fan\u00e1tica, a Grande Biblioteca foi se esvaindo devagarzinho, por descuido e azar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempo: cronistas crist\u00e3os do Oriente M\u00e9dio tamb\u00e9m tentaram, por sua vez, jogar a culpa pelo fim da biblioteca alexandrina nas costas dos mu\u00e7ulmanos. Ao conquistar o Egito em 642 d.C., um general isl\u00e2mico teria dito: &#8220;Ou os livros confirmam o Cor\u00e3o e, portanto, s\u00e3o in\u00fateis, ou o contradizem e, portanto, devem ser destru\u00eddos&#8221;. Ao que tudo indica, nada disso aconteceu a hist\u00f3ria s\u00f3 aparece em textos escritos uns 500 anos depois do suposto fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aparentemente existe uma cl\u00e1usula contratual t\u00e1cita, nunca colocada diretamente no papel mas eternamente presente, feito um espectro inquieto, que obriga todo santo document\u00e1rio sobre hist\u00f3ria da ci\u00eancia a prantear a perda da biblioteca de Alexandria. 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